quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Muita pretensão

Eu queria escrever um texto profundo, cheio da minha corriqueira esperança, cheio de um desejo inequívoco de viver muito, intensamente, com tudo e apesar de. Eu queria escrever um texto que devolvesse essa vontade para as pessoas, vontade de lutar, de continuar vivo, de se arriscar. Eu queria escrever algo que fizesse com que alguém mudasse aquilo que sempre achou ser incapaz de mudar. Um texto que convencesse alguém a correr atrás daquilo que sempre quis e nunca teve coragem para tanto. Eu queria escrever um texto revolucionário, que transformasse um pouquinho o mundo ao redor. Um texto que tocasse os corações perdidos, desiludidos, amargurados. Algo que comovesse alguém com o coração endurecido. Algo que fizesse sorrir aquele que perdeu o mundo inteiro numa curva de estrada, numa maca de hospital, numa esquina qualquer. Que fizesse pensar aqueles que não param nenhum segundo sequer para refletir. Eu queria escrever de um jeito que fizesse alguém mais feliz, mais forte, mais persevarante... De um jeito que fizesse com que aquele que corre contra o tempo diminuísse o ritmo e ficasse um pouco mais com seus. Um texto que fizesse com que casais separados por abismos de mágoa e dor dessem as mãos. Um texto que fizesse com que irmãos que se perderam nos redemoinhos da vida se perdoassem. Algo capaz de teletransportar alguém distante para junto de quem sente sua falta pesadamente. Um texto capaz de diminuir distâncias, fechar buracos, soterras os fundos de poços, secar todas as lágrimas (ou, pelo menos, deixar permanecer apenas as de felicidade). Um texto só, mas que fizesse com que cada pessoa, ao lê-lo, levantasse de seu comodismo e inação e percebesse que a gente não está aqui para pagar contas, ou acumular riquezas, ou engordar a conta bancária, ou viajar o mundo inteiro em 90 dias, ou comprar helicóptero e jatinho e camaro amarelo... Não! A gente está aqui para amar e aprender. Um texto só e que fosse capaz de fazer um Ano Novo inesquecível para cada um e para todos.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

E o mundo não se acabou


"Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar
Por causa disso, minha gente lá de casa começou a rezar
E até disseram que o sol ia nascer antes da madrugada
Por causa disso, nessa noite, lá no morro não se fez batucada
 
Acreditei nessa conversa mole
Pensei que o mundo ia se acabar
E fui tratando de me despedir
e, sem demora, fui tratando de aproveitar
Beijei a boca de quem não devia
Peguei na mão de quem não conhecia
Dancei um samba em traje de maiô
E o tal do mundo não se acabou
 
Chamei um gajo com quem não me dava
E perdoei a sua ingratidão
e festejando o acontecimento
gastei com ele mais de quinhentão
Agora soube que o gajo anda
dizendo coisa que não se passou
Vai ter barulho, vai ter confusão
porque o mundo não se acabou"

 

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

O que você faria se só te restasse esse dia?

Às vésperas de um fim de mundo improvável, eu me pergunto à la musica do Lenine, o que faria se só restasse esse dia. Se o mundo fosse acabar, me diz o que você faria. E, poxa, me angustio em saber que não visitei todos os lugares e não li todos os livros que queria ler. Perdi muito tempo fazendo coisas por obrigação, porque tinha que, isso é um fato. Perdi muito tempo com burocracia e com o que os outros pensariam de mim se isso ou aquilo. Acho que se o mundo fosse acabar, eu iria fazer as compras estapafúrdias que não fiz por prudência, por medo de não fechar as contas do mês. Eu pegaria um avião com os meninos do meu lado. Ou não. Quem sabe, correria para beira do mar para ver o sol, para mergulhar, para comer patonas de caranguejo até doer, até dar dor de barriga. Com certeza, faria muitas ligações para que algumas pessoas soubessem o quanto sou grata e feliz por tê-las, quem sabe correria ao encontro de algumas delas, as que estivessem em um tempo-espaço viável de serem encontradas. Abraçaria muito e repetiria aos meus pequenos o que digo todos os dias: Você sabia que eu te amo? Muitoooo! Enormeeee! Maior que o universo inteiro! E tentaria fazê-los tranquilos, sem perceber o alvoroço todo que o último dia da humanidade causaria no mundo. Reproduziria para os lá de casa o quanto eu tenho sorte de ter uma família doida, doida, mas muito legal e companheira. Diria aos amigos mais queridos o quanto foi incrível dividir essa trajetória curta e emocionante com eles. Diria para as pessoas de minha vida aquilo que tenho feito há algum tempo nessa verborragia pública: que são eles que importaram para mim e que valeu a pena. Nos últimos instantes, eu seguraria as mãos dos meus filhos e esperaria pelo clarão com os olhos bem abertos (eu imagino que vá ter um clarão quando o mundo for se acabar) e no último instante de verdade, fecharia os olhos e pensaria em como vai ser bom essa família descompleta reencontrar o seu membro que já está do lado de lá.
 
E você? O que você faria?

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Não é meu, mas poderia ser...

Eu quis sonhar com um amor perfeito. Como aqueles que brilham nos filmes, que nos fazem suspirar com os livros, que nos encantam nas canções.

Aqueles que cintilam azul e tem cheiro de jasmim, brisa de pétalas e reflexo de sol. Nos quais todo dia é sábado e todo sábado é verão.

Quis traçar destinos sonhados, roteiros amarradinhos, cenas sem correções. Dessas nas quais destilar palavras ao pé do ouvido e poses à meia luz proporcionariam a permanência de sorrisos frouxos e prazeres particulares.

Pensava esse tal amor como as fotografias bonitas. Nas quais não há espaço para cenários ruins, sombras ou a necessidade de efeitos especiais. Só o amor naturalmente brilhando calmaria e destilando felicidade. Amor de permanentes mãos dadas e corações grudados, de voz suave e confissões.

Um amor forte e perecível a falas tortas, cortes e curativos. Resistente a tudo, imune a todos e às nossas próprias confusões.

Eu quis. Eu quis um amor assim. Quis acreditar que amor perfeito, amor certinho, amor arrumadinho é aquele que só diz sim.

Mas não. Amor de verdade não é assim. Eu estava errada e talvez você também esteja.

Amor também diz não. Amor também tem discordâncias, desfoques, textos revisados e cenas refeitas. Amor também fica amarrotado, mal-humorado, descabelado e sai mal na foto.

Não é isento a tudo como idealizamos. Não vamos criar ilusões. Amor também sangra, também se perde. Precisa ser regado, vigiado, refeito, costurado, remendado se for preciso, se nos fizer feliz.

O amor tem dias cinza, tempo ruim, trovoada e temporal. Tem sorriso e chororô. Tem banho de chuva e maremoto. Tem bem-me-quer e tô-de-mal. Tem bagunça e mal-entendido. Tem mania e tem pirraça.

Mas o amor, o amor mais bonito, é também tão maior que o imperfeito se refaz. Os defeitos não sobressaem e o mau jeito se ajeita e transforma em paz o que tinha cara de ser vendaval.

O amor constrói e é construção. Tão lindo que não precisa que se entenda. Tão legítimo que não carece aceitação. Tão bem vindo que levanta morada.

Esse amor, o mais bonito, nem precisa ser infinito, suas únicas premissas são: que seja recíproco e que nos faça sorrir. Isso sim, que seja pra sempre.

(Yohana San fer)

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Reflexão

A vida não é o que acontece nesse espaço limitado de quatro linhas retas. A vida não é o que está exposto na rede social. A vida não é aquilo que as pessoas conseguem saber com cliques. Acredite em mim, o que é importante até aparece lá, mas o que é verdadeiro existe aqui fora, no mundo real. A vida é aquilo que acontece enquanto você curte e comenta. Não abro mão de encontros, abraços beeem apertados, olhos nos olhos e beijos estalados... Não abro mão de viver de verdade. O que está exposto aqui e lá é apenas uma janela da frente da casa. Tem muito mais coisa, muito mais vãos, muito mais cômodos em que só aqueles que são convidados a entrar têm o (des?)prazer de conhecer. Há porões que quase ninguém adentra, há sótãos com belas vistas, há um quartinho nos fundos que é só meu. Não adianta. Essa exposição toda não substitui o que deveria acontecer de verdade. Sim, diminui as distâncias, facilita o contato, mas não dá para ser só assim. Nesse ponto, estou de acordo com o Gabito.
 
Revolução?


Voltando pra casa no engarrafamento das dezenove horas. Um ônibus emparelha ao lado do meu. Conto as janelas, são nove pessoas, três cochilam, uma analisa o leva-e-traz da calçada. As outras cinco fuçam em seus telefones. Curtem, compartilham, atualizam, comunicam. Estamos na era revolucionária. Geração fone de ouvido – o poder da invisibilidade e do autismo opcional.

Desço na parada do shopping, preciso de uma camisa nova e de um presente. As luzes de Natal me dão engulhos. Preciso ser rápido, e o caminhar não flui. Preciso ficar desviando das garotas com suas caras enfiadas nos seus espertofones, lendo recados, comunicando, com medo de estar perdendo alguma coisa. Que filme você nunca viu? Que festa a gente nunca foi? Quem comeu quem? Quem caiu na rede? O que nós tanto temos a perder?

Vão dizer. Não é só um site, é um encurtador de distâncias. Mas eu não posso sentir o cheiro de talco da minha vó que mora longe, nem o som dela arrastando as sandálias antes de ir dormir. Um avatar e um retrato na lápide dá na mesma. Meus poucos e caros amigos, onde estão? Não faço questão de vê-los, qual a motivação? Sinto que já sei tudo o que eu preciso saber sobre eles. Me esforço, proponho um drinque e um papo mais tarde. Mais tarde, quando? No mês? Ainda em 2012? HOJE? Não dá. E se eu mandar instalar um botão bem no meio da minha cara? Eu fico mais interessante?

O que era pra ser uma rede social virou nada mais que um comparador de vidas. Olha eu, em frente à Torre Eiffel. Olha o meu novo corte de cabelo. Eu curto essa marca de cerveja. Estou em um relacionamento sério. Eu não presto. Eu sou legal. Chove e eu me sinto tão só. Queria que você fosse tão feliz quanto eu sou. Troquei de emprego. Troquei de torradeira. Troquei de sexo. O mundo entre aspas. O universo conspira ao meu pavor.

Sorria, você está se autofilmando. Todo dia tem a hora da sessão de fotografias. Ensaio para a Caras e as bocas e os decotes. Ah, mas uma foto faz de um momento inesquecível. Puxa, que porcaria de memória é essa sua. Postar é viver. Agora, a participação do internauta. Nunca foi tão fácil falar. Era a desmassificação da cultura, agora é só uma extensão do que passa na televisão. Comentarista de novela, esse mala sou eu.

Me escuta. Você precisa desse aparelho novo, o seu método de se importar com seus camaradinhas está ultrapassado, amigo. Pois é. Ninguém mais atravessa a cidade para encontrar alguém. Assine o nosso plano e pague para falar. Com apenas 59,90 mensais você pode ter um milhão de amigos e frequentar salas de bate-papo onde não cobramos 10 por cento, não tem goteira e ninguém corre risco de contrair herpes. Amigo é coisa pra se guardar na barra lateral, dentro da tela do computador.

Agora é sério. Você precisa desse telefone, vai por mim. Ele é três gigas mais smart do que você. Olha como são jovens, felizes e saltitantes as pessoas no meu comercial. Com mais um centavo você leva esse exclusivo aplicativo que simula um beijo de língua com qualquer pessoa que esteja na Romênia.

Você precisa de uma internet ilimitada, senão como vai protestar a favor de índios e contra a carne vermelha? Vamos lá, todos nós, rumo ao senado federal derrubar a corrupção, caminhando e cantando e seguindo no Twitter. Vamos tomar as ruas pelo Google Street View, cada um na sua. Nunca fomos tão livres no meio de tantas grades. Ué, você não queria mudar o mundo? Assine aqui e fique por dentro de nossas grandes novidades.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Rifando

::: Rifa-se um coração (quase novo) :::
Clarice Lispector

Rifa-se um coração quase novo.
Um coração idealista.
Um coração como poucos.
Um coração à moda antiga.
Um coração moleque que insiste em pregar peças no seu usuário.
Rifa-se um coração que na realidade
está um pouco usado, meio calejado, muito machucado
e que teima em alimentar sonhos, e cultivar ilusões.
Um pouco inconseqüente
que nunca desiste de acreditar nas pessoas.
Um leviano e precipitado,
coração que acha que Tim Maia estava certo
quando escreveu... "não quero dinheiro,
eu quero amor sincero, é isso que eu espero...".
Um idealista...
Um verdadeiro sonhador...
Rifa-se um coração que nunca aprende.
Que não endurece,
e mantém sempre viva a esperança de ser feliz,
sendo simples e natural.
Um coração insensato que comanda o racional
sendo louco o suficiente para se apaixonar.
Um furioso suicida que vive procurando relações
e emoções verdadeiras.
Rifa-se um coração que insiste
em cometer sempre os mesmos erros.

Esse coração que erra, briga, se expõe.
Perde o juízo por completo em nome de causas e paixões.
Sai do sério e, às vezes revê suas posições
arrependido de palavras e gestos.
Este coração tantas vezes incompreendido.
Tantas vezes provocado. Tantas vezes impulsivo.
Rifa-se este desequilibrado emocional que,
abre sorrisos tão largos que quase dá pra engolir as orelhas,
mas que também arranca lágrimas e faz murchar o rosto.
Um coração para ser alugado,
ou mesmo utilizado por quem gosta de emoções fortes.
Um órgão abestado
indicado apenas para quem quer viver intensamente e,
contra indicado para os que apenas pretendem passar pela vida
matando o tempo, defendendo-se das emoções.
Rifa-se um coração tão inocente
que se mostra sem armaduras e deixa louco o seu usuário.
Um coração que quando parar de bater
ouvirá o seu usuário dizer para São Pedro na hora da prestação de contas:
" O Senhor poder conferir", eu fiz tudo certo,
só errei quando coloquei sentimento.
Só fiz bobagens e me dei mal
quando ouvi este louco coração de criança
que insiste em não endurecer e, se recusa a envelhecer".
Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se por outro
que tenha um pouco mais de juízo.
Um órgão mais fiel ao seu usuário.
Um amigo do peito que não maltrate tanto o ser que o abriga.
Um coração que não seja tão inconseqüente.
Rifa-se um coração cego, surdo e mudo,
mas que incomoda um bocado.
Um verdadeiro caçador de aventuras que,
ainda não foi adotado, provavelmente,
por se recusar a cultivar ares selvagens ou racionais,
por não querer perder o estilo.
Oferece-se um coração vadio, sem raça, sem pedigree.
Um simples coração humano.
Um impulsivo membro de comportamento até meio ultrapassado.
Um modelo cheio de defeitos que,
mesmo estando fora do mercado,
faz questão de não se modernizar, mas vez por outra,
constrange o corpo que o domina.
Um velho coração que convence seu usuário
a publicar seus segredos e, a ter a petulância
de se aventurar como poeta.

Marcele Caroline

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

A força do tempo

"Vai passar. Não é um conselho alegre. Não me tranquiliza saber que terminaremos. É uma advertência que me desespera. Não gostaria que passasse.

Eles não entendem que não sofro porque o amor acabou, sofro para não acabar o amor.

Sou contrário ao término, me oponho à nossa extinção. Sou o único que resiste contra o fim de nossa história.

Eu não quero que passe. Mas sei que vai passar.

Sei que o amor vai morrer desidratado, faminto, por absoluta falta de cuidado. Vai passar, infelizmente.

Tudo o que a gente construiu junto vai passar. Tudo o que a gente idealizou, inventou e armou vai passar.

O lugar no peito que recebia seu rosto para dormir vai passar. Nossos apelidos, nossos chamados, nossas piadas vão passar.

Por mais que acredite que seja impossível, irei namorar de novo, me apaixonar, casar e rir docemente sem culpa. Vai passar.

Não superamos os medos, sucumbimos na segunda crise, desistimos de insistir.

Somos fracos, somos influenciáveis, somos tolos.

Foi muita incompetência de nossa parte.

Não seremos inesquecíveis.

Vai passar."

(Carpinejar)

 
E é tolo, é clichê e é juvenil. É dolorido, é angustiante e, em alguns momentos, é sufocante sentir. É inevitável doer e deixar as lágrimas caírem e, de vez em quando, a gente acaba se traindo e se pega elaborando estratégias para um encontro casual e desculpas para um telefonema. Até que a racionalidade bate na nossa cara e chama para a realidade cruel de que o que se tem que fazer é deixar o tempo correr, a ferida fechar, as lágrimas secarem. Em um e noutro momento, a gente se pega pensando que ninguém vai combinar tanto com a gente, que ninguém vai assumir nossa história e se encaixar nela tão perfeitamente, que ninguém mais vai fazer sentido. A gente olha para o mundo com preguiça de viver, com desânimo, sem a mínima paciência para tanta gente estúpida e sem profundidade alguma, sem papos animados de madrugada, sem nada que lhe seja minimamente atraente, sem ter com quem dividir o jornal nacional pessoal, sem ter um ombro para encostar a cabeça. Não é a toa que deilusão rima com solidão.
 
Aí, o tempo passa, viram as folhas do calendário. Os dias viram semanas, as semanas viram meses, a vida segue com seus afazeres, sua rotina louca, seu correr alheio àquilo tudo que derruba e que levanta a gente. Um dia, numa conversa trivial, com uma pessoa antiga na sua vida, você olha para a história toda que não queria deixar passar e, vejam só, passou. Olha para a vida que se leva e pensa: eu me acostumei. Não dói mais, não pesa, não comprime mais o peito. Você sabia que passaria, porque sobreviveu a vendavais fortíssimos. Você reconhece a paz e a serenidade do amanhecer depois da tempestade. E, num misto de surpresa e incredulidade, percebe que há faíscas agora no fundo do olhar, há um friozinho na barriga, há um suspiro aliviado, há uma esperança que pinta mais bonito o correr dos dias. Você percebe então que nem foi tão difícil assim. Abre as portas de si para redescobrir a alegria de viver e para dar vazão às delícias de todas as possibilidades que se jogam no seu caminho.
 
Você nem queria deixar passar. Você nem queria que passasse, mas passou.
 

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Carta ao Papai Noel - 2012

Querido Papai Noel,
 
Eu sei, faz tempo que não me correspondo com você. Ano passado eu nem pedi nada e, no ano anterior, eu só queria ser poupada dos vendavais, dos terremotos, da tempestade... Sim, eu sei que não tenho sido uma menina muito atenciosa, mas eu tenho tentado manter a magia, o espírito e os sonhos nos meus pequenos. Eles até já escreveram suas cartinhas. Isso deve contar alguns pontos a favor, né, não?
 
A vida mudou tanto, né? Quando eu paro para pensar nos últimos três anos, eu sinto que eu envelheci, endureci, cresci, amadureci, pero sin perder la ternura jamás. Eu ainda sonho tanto, Papai Noel, com viagens, com finais felizes, com músicas escritas para mim, com mais tempo para os pequenos... Eu ainda tenho tanta coisa para fazer nessa minha vidinha pequeno-burguesa-mãe-de-família... Não quero aqui relatar os perrengues e provações do ano que passou. Não quero mostrar meu boletim com as notas que tirei pelas minhas lutas diárias, pelos meus rebolations, pela minha tentativa ininterrupta, quase insana, de ser feliz. O que eu quero é fazer um pedido, um só. Nada caro, nada pesado, nada que o senhor não possa dar conta.
 
Olha só, eu já entendi que a vida é doida, cheia de altos e baixos, cheia de surpresas deliciosas e de fundos de poço. Acho que já aprendi a lição de que, por aqui, num tem esse negócio de quota de sofrimento e de quota de alegria, não. Tem momentos, uns massa e uns terríveis e a gente vai de lá pra cá, revezando essas coisas todas. Eu aprendi que, nem adianta querer muito, não vai dar para controlar tudo. Na verdade, o que se controla é um mínimo existencial, que só serve para uma falsa ilusão de que decidimos alguma coisa e que temos ingerência sobre algo.
 
Diante disso tudo, o que eu quero pedir é saúde para aguentar os trancos e inteligência para não perder o timing das coisas. Alguma ajuda divina para me fazer perceber uma oportunidade incrível e para me livrar das ciladas todas que se impõem no caminho. Bom senso e um pouco de sexto sentido, a fé que me move e um tanto de esperança renovada de que o melhor está mesmo ali onde a minha vista não alcança. Isso é tudo, Papai Noel. Nada material, tudo subjetivo. Conto com sua ajuda.
 
Um abraço beeeeem apertado, como os que costumo dar aos que quero muuuuiiiito bem.
 
Marcele

domingo, 2 de dezembro de 2012

Metáfora

"Sopra o vento leste e encrespa o mar...
Vem a noite e cai seu manto escuro devagar..."
(Marisa Monte)
 
 
Uma casinha abandonada. Ninguém para habitá-la, limpá-la, mantê-la, conservá-la ou embelezá-la. Uma casinha acumulando a poeira do correr dos dias sem ninguém por perto. Um imóvel docemente construído com todos os sonhos para onde se queria mudar. Um imóvel projetado para ser castelo e que, a bem da verdade, nunca passou de uma casinha simples.
 
Um imóvel que se deteriora a olhos vistos: infiltrações vão apagando cada uma das exclusividades e dos pequenos detalhes que construíram e selaram cada tijolo ali plantado. Infiltrações estas que, simplesmente por serem mais recentes, suplantam o branco puríssimo das paredes e mancham a memória que se queria preservar.
 
Uma casinha abandonada, que perde, a cada tictac do relógio, muito do ar bucólico e lúdico que tinha no começo, perde muito do ideal que moveu seu construtor, perde para sempre a sensação de lugar encantado, destino, ponto de chegada. Uma casinha abandonada perecendo a céu aberto, desmanchando-se na solidão, no silêncio, no vazio, no nada e no nunca mais.
 
Uma casinha abandonada, em ruínas, fazendo força Deus-sabe-lá-porque para ficar em pé,  é tudo o que restou. 

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Carpinejar falando por mim

Eu espero alguém que não desista de mim mesmo quando já não tem interesse. Espero alguém que não me torture com promessas de envelhecer comigo, que realmente envelheça comigo. Espero alguém que se orgulhe do que escrevo, que me faça ser mais amigo dos meus amigos e mais irmão dos meus irmãos. Espero alguém que não tenha medo do escândalo, mas tenha medo da indiferença. Espero alguém que ponha bilhetinhos dentro daqueles livros que vou ler até o fim. Espero alguém que se arrependa rápido de suas grosserias e me perdoe sem querer. Espero alguém que me avise que estou repetindo a roupa na semana. Espero alguém que nunca abandone a conversa quando não sei mais falar. Espero alguém que, nos jantares entre os amigos, dispute comigo para contar primeiro como nos conhecemos. Espero alguém que goste de dirigir para nos revezarmos em longas viagens. Espero alguém disposto a conferir se a porta está fechada e o café desligado, se meu rosto está aborrecido ou esperançoso. Espero alguém que prove que amar não é contrato, que o amor não termina com nossos erros. Espero alguém que não se irrite com a minha ansiedade. Espero alguém que possa criar toda uma linguagem cifrada para que ninguém nos recrimine. Espero alguém que cheire meu corpo suado como se ainda fosse perfume. Espero alguém que não largue as mãos dadas nem para coçar o rosto. Espero alguém que me olhe demoradamente quando estou distraído, que me telefone para narrar como foi seu dia. (...) Espero alguém que minta que cozinha e só diga a verdade depois que comi. Espero alguém que leia uma notícia, veja que haverá um show de minha banda predileta, e corra para me adiantar por e-mail. Espero alguém que ame meus filhos como se estivesse reencontrando minha infância e adolescência fora de mim. Espero alguém que fique me chamando para dormir, que fique me chamando para despertar, que não precise me chamar para amar. Espero alguém com uma vocação pela metade, uma frustração antiga, um desejo de ser algo que não se cumpriu, uma melancolia discreta, para nunca ser prepotente. Espero alguém que tenha uma risada tão bonita que terei sempre vontade de ser engraçado. Espero alguém que comente sua dor com respeito e ouça minha dor com interesse. Espero alguém que prepare minha festa de aniversário em segredo e crie conspiração dos amigos para me ajudar. Espero alguém que pinte o muro onde passo, que não se perturbe com o que as pessoas pensam a nosso respeito. Espero alguém que vire cínico no desespero e doce na tristeza. Espero alguém que curta o domingo em casa, acordar tarde e andar de chinelos, e que me pergunte o tempo antes de olhar para as janelas. Espero alguém que me ensine a me amar porque a separação apenas vem me ensinando a me destruir. Espero alguém que tenha pressa de mim, eternidade de mim, que chegue logo, que apareça hoje, que largue o casaco no sofá e não seja educado a ponto de estendê-lo no cabide. Espero encontrar alguém que me torne novamente necessário.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Temos nosso próprio tempo?

Assisti na noite passada um filme de ficção científica ao estilo "tela quente". O filme trata de uma série de aspirações humanas corriqueiras, como a imortalidade, a juventude eterna e o uso do tempo que temos. Explico.

Na história, cada ser humano nasce com um relógio implantado no braço. Este relógio só é ativado quando completa 25 anos e, a partir dessa data, a pessoa não envelhece mais, mas tem seu tempo constantemente marcado numa contagem regressiva visível em seu antebraço. Fisicamente, a aparência é sempre jovial e o corpo é sempre atlético e qualquer pessoa, em tese, pode se tornar eterna se conseguir, a cada dia, mais tempo para si. Incrível não?

A genialidade do roteiro está no fato de que o tempo passa a ser dinheiro (time is money). As pessoas trabalham o dia inteiro e ganham algumas horas. Contas, empréstimos, ligações em telefone públicos, pedágios, refeições, são todos pagos com o tempo que se ganhou. Basta aproximar o antebraço e a quantidade de tempo/preço é diminuída do tempo que se tem.

Nesse contexto, poderíamos supor que não haveria diferença entre ricos e pobres, uma vez que é justamente a morte e o medo dela que nos aproxima a todos. Ledo engano. Os mais pobres correm o tempo todo contra o relógio, tentando às pressas conseguir mais tempo de vida. Muitos morrem na rua, em plena luz do dia, por ter seu tempo esgotado. Deixam de comer para economizar, deixam de ter lazer, moram em locais mais baratos (vejam a ironia fina do roteiro).

Os mais ricos andam com guarda-costas e usam luvas para esconder a quantidade exorbitante de tempo que possuem. Apostam quantidades gigantescas em cassinos e gastam muito tempo em festas luxuosas, restaurantes e roupas caros. Fazem tudo lentamente porque, afinal, têm todo tempo do mundo e mais. Emprestam tempo aos mais pobres e cobram juros extorsivos. Mantém um exército vigilante e a divisão espacial, há locais para os ricos e há guetos para os pobres.

O que me fez refletir no filme foi justamente o fato de desmontar aquele raciocínio lindo e libertador sobre o que faríamos se soubéssemos que só nos restava um dia. A resposta sempre envolve gastar esse tempo com coisas que sejam aprazíveis e com as pessoas que amamos. No filme, as pessoas tem um relógio em contagem regressiva e fazem justamente aquilo que somos obrigados a fazer todos os dias: trabalhar, pagar contas, assumir as responsabilidades a fim de tentar conseguir mais tempo. E, depois de conseguir mais tempo, fazem tudo de novo.

Daí, fiquei me perguntando: Temos nosso próprio tempo? O que estamos fazendo com ele? Trabalhando, pagando contas e assumindo responsabilidades a fim de ganhar dinheiro para poder viver. Só não sobra muito tempo para viver, né? Vinte dias por ano de dolce far niente em troca de 345 dias de trabalho. Tá certo, isso? O que nos distingue do filme? Há mesmo distinção?

Créditos: O preço do amanhã (In time) com Justin Timberlake e Amanda Seyfried.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Raciocínio Lógico

Afirmativa 1: Eu te amo
Afirmativa 2: Você é a pessoa da minha vida
Afirmativa 3: Tenho certeza da reciprocidade desse sentimento

Se as três afirmativas forem verdadeiras, temos, então, uma linda história de amor para contar.

Se as pessoas emissora e objeto das afirmações acima não estiverem juntas, a única conclusão possível  é de que, pelo menos uma, dentre as três alternativas, não é verdadeira. Pode ser que mais de uma seja falsa. Pode ser que todas sejam falsas. Não importa(m) qual(is).

Certeza mesmo só de que houve uma mentira.


PS: Post totalmente inspirado num SMS da minha amiga REAL Miriane Segalla.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Quase amor

Quase amor é aquilo que fica na linha tênue que divide o lado em que cada um segue sua vida normalmente e o lado em que não se pode mais viver sem. Um quase amor é aquele que, se não te liga no dia seguinte, tudo bem. Se te liga, tudo ótimo! E, quando liga, um sorriso de canto de boca surge. Um quase amor é aquele que a gente adora reencontrar, com quem a conversa flui simples e natural, com quem se divide até o pé na bunda que ainda dói. Só um quase amor é capaz de arrancar sorrisos no meio de uma história triste e de arrancar lágrimas numa gargalhada. Um quase amor faz um domingo feliz, uma noite inesquecível e muita história pra contar. Um quase amor vira doce recordação, vira filme na memória, vira post. Um quase amor faz a vida doce sem a pretensão de perenidade. Ele é inteiramente consumido no instante em que acontece. Sem futuro, sem depois, sem amanhãs, sem projetos, sem mais nada. Ele é quase, sem promessas, sem alarde, sem família.. É leve e doce como o amor deveria ser, mas não é amor. É quase. São olhos que se olham, mãos que se procuram e se encontram, são lábios que se beijam, são como no poema do Manuel Bandeira, os corpos se entendem, as almas nem se tocam. Um quase amor tinha tudo para ser amor: admiração, companheirismo, intimidade, leveza... Tinha tudo para ser só amizade. Só que prefere ficar ali no limbo do meio do caminho. Um quase amor é aquela história legal de contar: divertida, engraçada, sem mágoas, sem ressentimentos, sem culpados, sem dor. É sempre feliz o final de um quase amor.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Espírito de férias...

"Quando nos perdemos um do outro, ganhamos o direito de buscar de novo - e encontrar - um outro outro. Esse vácuo que se abre quando o outro se vai não deve ser preenchido com tristezas nem com restos de um passado que já não há. Esse espaço que o outro desocupou - até que enfim - agora é só teu. Cubra-o, portanto, de alegria, de paixões e de aventura". (Edson Marques)
 
E as férias começam em 3, 2, 1...

sábado, 10 de novembro de 2012

Nove de novembro pela terceira vez

Thi,

Ontem teria sido seu aniversário de 31 anos. Ontem teria sido um dia de festa, de encontrar muitos amigos, de beber muita cerveja e de comemorar. Ainda mais sendo uma sexta. Ontem teria sido um dia inteiramente seu, de acordá-lo com muitos beijos, de enchê-lo de surpresinhas durante o dia, de fazê-lo sorrir. Mas não, não quero mais falar desse futuro do presente tão doce e nostálgico até. Queria mesmo apenas agradecer.

Motivos não me faltam. Queria agradecer por ter tido você em minha vida de uma maneira tão integral e perfeita. Agradecer por esse amor incondicional e persistente e resistente e forte. Agradecer por me deixar claro como se comporta um homem quando ama de verdade uma mulher, por me fazer ver o quanto brilham os olhos de um cara apaixonado, o quanto o sorriso é aberto e sincero, o quanto a vida dele enrosca na da mulher que ama num nó cego que nem tempo, nem distância, nem a morte é capaz de desfazer. Nem a morte! Ainda me sinto amada por você.

Queria agradecer pelos filhos que fizemos juntos, fruto desse amor que não cabia mais em nós e precisava transbordar. Agradecer pela sua insistência para que tivéssemos logo mais de um e o Thomás tá aqui, enchendo nossa vida de alegria com seu bom humor herdado inteiramente de você. Agradecer pela família que somos e seremos para sempre. Agradecer pela mulher que você me fez ser na vida e após a morte. Você ainda me amaria do mesmo jeito se me visse resolvida e independente assim? Acho que sim...

Queria agradecer por me fazer tão feliz durante tanto tempo. Tão feliz a ponto de nossos momentos abrirem sorrisos em mim até hoje, a ponto de serem as melhores histórias para contar para nossos filhos, a ponto de eu ter convicção hoje de que não mereço pouco, não mereço metade, não mereço morno. Agradecer por você, por esse amor, pela família e pela vida que tivemos juntos, por tudo isso que me fez e me faz mais forte, mais inteira, mais racional e decidida.

Muita saudade! Muito amor! Muita paz onde quer que você esteja!
Amamos você!

Moreninha, grandão e gorducho.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Parabéns

O mesmo janeiro trágico. Um aniversário em maio e outro em novembro. Duas crianças pequenas que inconscientemente foram porto seguro e fortaleza. A mesma dor, tantas lágrimas, tantos desabafos. A mesma verborragia pública. A mesma sensação de que o mundo era um lugar estranho sem aqueles que se foram. A mesma sensação de que nunca mais. Os mesmos medos e as mesmas responsabilidades. As mesmas nóias e a mesma vontade de ser feliz. Muitos sonhos parecidos,  muito o que dizer e dividir uma com a outra. De comentários nos blogs a emails diários, nos tornamos confidentes e muito amigas. Sim, AMIGAS!!! Sem nunca termos nos visto (o que está com dias contados)!!! Sinto-me extremamente honrada e feliz de fazer parte de uma parte da sua vida e adoro dividir os meus problemas e minhas alegrias com você (que agora são vocês, né?, com os dois). Você sempre tem uma palavra e um ponto de vista que eu preciso enxergar e, quando me expõe, eu penso: por que não pensei nisso antes? Tenho até hoje uma mensagem que você mandou no meu celular, dias depois de um momento difícil, dizendo que eu merecia mais. Quando estou pra baixo, eu releio, releio, releio para ver se interiorizo. Sei que daí, desses milhares de quilômetros que nos distanciam fisicamente, tem alguém que me entende perfeitamente. Não tinha como ser diferente com tanta coisa igual no nosso passado. TJ é TJ! E que bom que TJ!
 
Hoje, no seu dia de novembro, já com as coisas todas assentadas, já com a vida seguindo em frente com sua força inabalável, eu não preciso mais desejar sua felicidade porque ela é gerúndio. Eu desejo então um para sempre de contos de fadas, de comédia romântica, daqueles de suspirar. Desejo para você o mesmo que desejo para mim: o PARA SEMPRE!
 
Feliz Aniversário, Mirys!

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Sobre o que é o amor, ele disse...


"Amor é foco. Amar é sentir que a vida se condensa em torno de um sentimento e de uma pessoa, e por isso se torna deliciosamente simples, tanto quanto intensa. As dúvidas e os problemas recuam para o segundo plano. O tédio, o medo, a confusão se dissolvem num grande sentimento claro e límpido. Ele é como o facho de luz que atravessa uma lente e se transforma, do outro lado, num único ponto rutilante." (Ivan Martins)

E eu estou inteiramente de acordo.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

"I don't want this feeling to go away..."

Ainda bem que existe sempre um outro dia, um novo nascer do sol, uma vida inteira a esperar pela gente. Ainda bem que existe sempre alguém pra te fazer recobrar a fé na vida e a esperança de final feliz. Ainda bem que estamos vivos e com saúde para seguir em frente, para persistir na luta e para chegar ao lugar em que sempre quis estar. Ainda bem que tem gente que não desiste da gente, que teima, que insiste, que luta. Ainda bem que essa fé que me move pra frente não sai de dentro de mim. Ainda bem que alguém segura minha mão, seca minhas lágrimas, arranca sorrisos sinceros. Ainda bem que eu não desisto de mim. Ainda bem que eu não me adapto ao buraco escuro do fundo do poço e luto com toda minha força de vontade para sair de dentro dele e consigo! Vejam só: eu sempre consigo!
 
A vida é boa.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

De repente...

Ela poderia ter passado o resto da vida exatamente ali, esparramada na autopiedade. Lustrando as lembranças difíceis com zelo de quem guarda relíquias. Fazendo contas para medir o amor que ofereceu e o amor recebido. Atualizando todo dia a estatística das perdas e insucessos vividos. Esmiuçando, incansável, a história de cada traição sofrida. Envenenando-se com a substância tóxica da culpa. Morrendo de fome, com recursos para banquete, o medo desmatando lentamente territórios arborizados da alma, secando rios de delícias, amordaçando passarinhos, desmentindo flores.
 
Ela poderia ter passado o resto da vida exatamente ali, esparramada na autopiedade. Onde não corria vento, onde não batia sol, onde toda muda de alegria morria desidratada, onde só brotava pé de mágoa. Poderia, não porque ali fosse lugar aprazível, mas porque ali lhe parecia seguro. As insatisfações organizadamente acomodadas, os culpados escolhidos, as desculpas em dia, a escuta blindada para não ver o quanto o cansaço de toda aquela insipidez embotava o viço dos passos. Desmanchava estrelas. Esgarçava devagarinho o frágil tecido da paz. Ali, era mais fácil não arriscar movimento. Ali, era mais fácil esquecer que podia fazer escolhas. Ali, era mais fácil esquecer-se.
 
Mas a alma, sábia e habilidosa bordadeira de pretextos, quando encontrou brecha, arrumou um jeito de alumiar aquele lugar. Foi então que ela conseguiu enxergar exatamente onde estava com nitidez reveladora e também desconcertante. Fazia tempo, desconhecia o paradeiro do brilho dos seus olhos sem ter feito nenhum movimento para trazê-lo de volta. Estava profundamente infeliz e agiu durante temporadas como se isso não lhe dissesse respeito. Não fazia ideia da vez mais recente em que experimentara satisfação autêntica e até aquele momento sequer havia notado. Deu tanto poder aos outros para interferirem na sua alegria que esvaziara o próprio até a exaustão. Afastou-se tanto do coração e do seu desejo que encolhera-se, inerte, diante de cada golpe sofrido sem contar com a própria proteção. Esforçou-se de tal forma para se tornar interessante para o outro, que perdera o interesse por si mesma. Os sucessivos desapontamentos tentaram lhe dizer que não era merecedora de coisas que faziam toda diferença, e ela acreditou.
 
Na clareza que liberta, ao lembrar ser capaz de fazer escolhas pela própria vida, escolheu sair daquele lugar, passo a passo, gentileza a gentileza, no tempo que fosse necessário. Agora, poderia contar de novo consigo mesma. Renovar, gesto a gesto, o compromisso com o próprio coração. Sentir-se responsável pela própria felicidade com a confiança de quem recorda o que realmente mais lhe importa. E com uma vontade toda nova de, primeiro, desfrutar a dádiva da própria lindeza e do próprio amor.
 
(Ana Jácomo)

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Cansei

Cansei de me colocar em frente à porta, tentando impedir que você saísse. De que adianta eu te prender aqui se há muito você não quer ficar? E, ainda que ficasse, de que valeria sua presença se o seu coração quisesse estar lá fora? Cansei de ficar murmurando seu nome para não deixar você sair de dentro de mim. De que adianta eu continuar revirando o passado e as lembranças se não há mais futuro para nós? Cansei de ficar desenhando um conto de fadas, um final feliz de comédia romântica, o espetáculo de amor que justificaria minha vida e minha dor. De que adianta essa esperança inútil que teima em me fazer criar expectativas absurdas e incompatíveis com sua personalidade?  Cansei de tentar te convencer de que somos o melhor um para o outro, de que somos mais fortes quando estamos juntos, de que somos incríveis. De que adianta eu acreditar nisso sozinha? Quem ama definitivamente não precisa ser convencido disso! Cansei de esperar pela entrega, por atitudes, por convicção. Cansei de derramar todas as lágrimas que existem dentro do meu coração. Cansei desse sofrimento todo. Cansei.
 
Drumond disse uma vez que a dor era inevitável. E, sim, ela é. A vida mesmo se encarrega de jogar a gente em fundos de poços, em becos sem saídas. A vida, com suas artimanhas e traiçoeiras redes de eventos, faz com que doa. O sofrimento não. A gente é que alimenta, elastece, prolonga. Somos nós que escolhemos sofrer e pelo tempo que quisermos. Eu não vou ficar num lugar desses por opção. Eu não quero mais sofrimento. Nunca mais. Já fiquei tempo demais nesse lugar. Cansei da posta-restante e não tenho mais milênios e milênios para esperar. Cansei de ficar na esquina esperando você vir me buscar no ponto em que me disse adeus. Cansei dessa torre de castelo, onde a princesa espera por um príncipe que não chega nunca. Cansei de ficar olhando para atrás achando que o que eu perdi é o melhor que poderia me acontecer. Cansei.
 
A vida que se leva é decorrência direta das nossas escolhas. Há muito tempo eu escolhi você. Agora eu decido que não mais. Cansei.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Mais uma vez

É normal ter medo. Diante do novo, diante do desconhecido, depois de ter sofrido, depois de algumas portas na cara, depois de muitos nãos; qualquer um treme nas bases. Diante da possibilidade inteiramente nova, diante de algo antigo que você gostaria que fosse diferente, diante da primeira vez, diante de uma segunda chance, é natural ter medo. É instinto de sobrevivência, é autopreservação. Cada um se protege como pode, cada um tenta ao máximo cuidar de si e evita se machucar profundo. É claro que é normal ter medo.
 
O que não dá, o que não cabe, o que não é saudável, o que é triste é quando o medo paralisa a vida, o amor, a felicidade. Tudo ali escancarado à sua frente, esperando o salto e não. Analisando as possibilidades, pode dar tudo errado e terminar estraçalhado por dentro, mas também pode ser que na queda livre surjam asas e um longo voo e a sensação de plenitude. Não pular, não arriscar, não sentir é não viver. Eu fecho os olhos, respiro fundo e dou o passo para cair no precipício.

 

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Detalhes

Há quem não saiba o poder de um "até amanhã", mas, para mim, é a melodia que diz que a doçura da vida terá continuidade.
Há quem não saiba o poder das mãos dadas, mas, para mim, é o sintoma de que os corações estão enlaçados.
Há quem não saiba o poder de um beijo roubado com a mão segurando a nuca, mas, para mim, é o impulso do coração em atitude e a certeza de não querer correr risco de perder.
Há quem não saiba, mas, para mim, o mais importante é sempre o que transparece em detalhes.
Fim.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Quem não quer um final feliz?

Parece bobo e até juvenil (ultimamente tenho me achado muito juvenil), mas quem não quer um final feliz? Parecido com aqueles das comédias românticas... Parecido com aquilo que a gente foi acostumada a ver nos filmes, em que mocinhos se apaixonam por mocinhas e eles até sofrem um pouquinho até se entenderem, mas depois tudo dá certo no final e eles casam e são felizes... Quem não procura uma história de amor dessas em que não cabe dúvida, não cabe medo, não cabe titubear, não cabe mais ninguém? Quem não quer sentir as borboletas na barriga de novo?
 
Para quem passou por tanta dor, para quem perdeu o rumo, o final feliz é mais que uma promessa ou esperança, é uma recompensa! Sim, porque quem sofre muito, quem passa por maus bocados, quem come o pão que o diabo amassou, acaba achando que, em algum lugar, onde essas coisas da vida são decididas e controladas, há de ter alguém que está assistindo tudo e que, num determinado momento, diz: "pronto, chegou a hora de deixar ela ser feliz e mais nada".
 
É ridículo, eu sei. Como eu disse, tenho andado muito juvenil. As coisas não são lógicas ou matemáticas assim. E, esses dias, eu vi uma frase no facebook de uma querida conhecida, ela dizia: "Talvez o meu final feliz seja só seguir em frente". Talvez o meu também.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

I'm the queen of starting over, you can put the crown on me

p


I know the feeling you lost your way
feel second hand and broken
hope, blown away
feel so fine
can't sing no more
baby believe me you will rise again
stronger than before


said I'm the queen of starting over
you can put the crown on me
said I'm the queen of starting over
take your life where you want it to be
and make it happen
And in every life
little rain must fall
there ain't nothing perfect
child dont put yourself on hold
the earth is turning
and it will turn again
I can tell you because it happend to me girl
the world don't end

Said I'm the queen of starting over
you can put the crown on me
yes you can
said I'm the queen of starting over
take your life where you want it to be
and make it happen

I remember the first mistake I made
nobody could save me, save me, no
nobody don't let you down easy
think the pain will never let go
well love it ain't always what it seems to be

I know the feeling you lost your way
feel second hand and broken
oh blown away

said I'm the queen of starting over
you can put the crown on me
said I'm the queen of moving on
take your life where you want it to be
said I'm the queen of starting over
you can put the crown on me
said I'm the queen of starting over
take your life where you want it to be and make it happen
you can make it
you can make it
you can make it happen child

terça-feira, 2 de outubro de 2012

A importância das atitudes

Na vida, o que conta são as atitudes. Não adianta pregar para os quatro ventos que você sente isso ou aquilo, que você é assim ou assado. O que conta mesmo é o que se faz e como se faz. Nas suas ações é que transparece o que você é e o que você sente. Não adianta falar, falar, falar e não agir de acordo. Não adianta espernear, chorar, afirmar, reafirmar, repetir, dar piti para quem estiver ao redor ver, querendo provar aos gritos aquilo que não conseguiu demonstrar em atos. As pessoas só acreditam se as atitudes são condizentes com as palavras. O outro só entende o que é dito se houver uma ação correspondente.
 
Quem acredita sem ter prova ou fato que corrobore o que é dito, quem acredita sem questionamento algum é quem tem fé. E eu acredito na fé de todo mundo, respeito as variadas concepções religiosas profetizadas por aí. Porém, a fé deve se limitar às igrejas e aos recantos teístas. No dia a dia, na vida real, num relacionamento, as histórias não se desenvolvem baseadas em fé. Elas se desenvolvem baseadas em CONFIANÇA, que é outra coisa. Confiança precisa de prova, precisa de história, precisa de experiência e de fatos. Confiança é construção, trabalho diuturno, ininterrupto. E aí, tendo dezenas de fatos que provam o contrário, atitudes que não condizem em nada com que é dito, histórias cuja conclusão não se liga com os fundamentos; é simplesmente impossível confiar. Vira uma questão de ter fé ou não.
 
Para mim, um relacionamento baseado em fé tende a desmoronar. É possível que se fique junto por um tempo, na esperança - última a morrer - de que as provas surjam e rompam a barreira da passividade, da omissão. Uma hora, a vida cobra atitude. Uma hora, é preciso se posicionar. Uma hora, é imperativo tomar uma decisão. Uma hora, é preciso se indispor com uns para mostrar aos outros o que se quer, o que se é, em que se crê, o que se sente. Não adianta. A vida é feito de afetos e desafetos, de ações e de omissões, de alegrias e tristezas, de surpresas e de mágoas. É preciso escolher, decidir e se posicionar a respeito. Suas atitudes e suas omissões dizem muito mais do que se pode imaginar.
 
Eu sei que tem gente que a gente não faz a menor questão de convencer, mas existem pessoas que merecem respeito, todo afeto e toda atenção. Para estas, eu gasto tempo com palavras, mas também com atitudes. 

sábado, 29 de setembro de 2012

Conselho

Quando se trata das coisas do coração, a única lição que eu consegui tirar é que não podemos nos trancar. Muitas vezes, o baque que levamos é tão forte e dolorido, que tendemos a nos tornar introspectivos e incrédulos. Não vale a pena.

Quando se trata das coisas do coração, o melhor é arriscar. Se existe algo que faz cócegas no coração, que põe um sorriso no canto da boca e no fundo do olhar, se há alguém que devolve a cor aos dias mais sombrios, faz a vida leve e com que acreditemos de novo na possibilidade de milagre, se existe algo que tira o sono e permeia o sonho e com o que se acorda já pensando; existe uma grande possibilidade e tudo leva a crer de que é exatamente aí que está o perfume do amor.

Por que não se embriagar? Por que não se perfumar? Não se apegue a formalismos, a mecanismos, ao que parece ser correto. Não queira manter um imagem ou usar de alegativas para escapar pela tangente. Se existe alguém que te faz suspirar, arrisque, se entregue, se jogue inteiro. Ainda que existam muitos esparadrapos e cicatrizes no seu coração.

Não tem tempo certo para o amor, não tem hora certa para que as coisas aconteçam. Já disse um poeta, o amor é uma coincidência. E, se é mesmo um acaso do destino, que saibamos aproveitá-lo e consumi-lo e vivê-lo. Inteiro, profundo, com todas as fichas em jogo. Até porque, se é pra sofrer, a vida mesmo se encarrega disso, mas ser feliz depende muito mais de esforço e coragem individual. Eu nunca me fecho e é este meu único e mais sincero conselho.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Da série: poderia ter sido escrito por mim

Não sei gostar com calma. Aliás, mal sei o que é calma. Isso realmente existe?
Quer calma? Pede um copo d'água, um chá de camomila, um comprimido. Eu sou o contrário.
Não consigo aguardar o miojo ficar pronto, que dirá esperar que as coisas aconteçam. Eu não. Sou do tipo que não faz tipo. Corro atrás, pego pelo braço, puxo, mordo. Canso, mas também faço cansar.
Não que me orgulhe disso. Ah! Como dá trabalho!
Às vezes fico exausta apenas por ser eu. Porque ser eu é uma tarefa árdua, cansativa, sem folga e com pouca remuneração.
Não sei gostar com calma. Não me peça calma, meu bem.
Agora que sabes como a banda toca, se toca. Cai fora!




 

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Aprendendo a desistir

Uma das lições que eu ainda preciso aprender é essa: desistir. Em alguns aspectos da vida, eu tenho preguiça de lutar, é difícil manter o foco e a concentração. Em alguns outros, contrariamente, eu não sei desistir. Eu insisto muito mais do que o tolerável. E aí, as coisas não terminam dentro de mim, os ciclos não se fecham porque eu não me dou por vencida. Preciso aprender a largar o osso, como me disse uma vez um amigo. Preciso aprender a baixar a cabeça e parar de tentar. Algumas coisas na vida não dependem do nosso esforço. Elas são ou não são. Elas existem ou não existem. Simples assim. Para aquilo que não depende de mim, eu preciso aprender a "let it go". É um trabalho árduo assistir passivamente as coisas acontecerem. É doloroso e massacrante. Ainda mais para mim, que tenho essa mania de querer tomar as rédeas das coisas, e decidir, e fazer acontecer, e jogar limpo, mas jogar com vontade e determinação. Desistir equivale a perder e eu não queria perder. Mas faz parte e eu estou aprendendo...

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Para quem lhe deveria resgatar: um grande amor

Era uma vez um grande amor. Desses que parecem coisa escrita pela mão de Deus; desses que devolvem sentido, razão e cor para vida; desses que a gente sente no fundo da alma que é coisa feita para sempre. Era uma vez um grande amor, desses que fazem crer em final feliz e que todas as comédias românticas do mundo são histórias verdadeiras, que fazem acreditar em destino e em predestinação. Era uma vez um grande amor que não tinha pressa, que sabia esperar em silêncio, no fundo do armário, que aguardava o momento de extravazar sua plenitude romântica porque era todo ele feito de certeza. Era uma vez um grande amor, que sobreviveu a inúmeras intempéries, dias de tempestade e de seca, dias extremos, e mostrou de maneira inequívoca toda sua força.

Era uma vez um grande amor que, no momento de se concretizar, se doou inteiro, profundo, sem rede de proteção, sem saídas de emergência, sem plano B. Ele era em si mesmo a razão e a finalidade, o passado e o futuro, a pergunta e a resposta. Era uma vez um grande amor, que não queria mais o fundo do armário, que queria sentar no sofá da sala e comer pipoca abraçado, que queria misturar os meus, os seus e os nossos, que queria ser realidade pública e notória. Era uma vez um grande amor que não queria mais ser segredo, que não queria mais subterfúgios. Era uma vez um grande amor que era todo feito de sonhos e de planos para serem concretizados a dois e a seis.

Era uma vez um grande amor que começou a ser consumido com a urgência de quem sabe da efemeridade e da fragilidade da vida, com a voracidade de quem não tem mais tempo a perder, com a profundidade de que era feito. Era uma vez um grande amor que tomou para si a responsabilidade de fazer sua história acontecer, que investiu cada segundo do tempo, cada dia de vida, cada pedaço de si a fim de transformar o roteiro de novela em história real. Era uma vez um grande amor que se agarrou ao que tinha para permanecer, que fez o que podia para não perecer, que esfolou as próprias mãos sem querer soltar as rédeas desse encontro. Mas as rédeas se quebraram...

Era uma vez um grande amor ferido, sangrando, esfolado, exausto, mas não acabado, não exaurido, não terminado. É uma vez um grande amor. Uma vez na vida e outra na morte, como diz o ditado popular. É uma vez um grande amor cansado de tanto lutar para ser, para caber, para existir. É uma vez um grande amor em silêncio, na posta restante, esperando ser reclamado por quem lhe deveria resgatar.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Pedaços


E sempra há o ato final, sem aplusoos, com a pequena plateia farta de nossas más atuações. Vão me dizer "Ei, cara, se decide, ou caga ou desocupa a moita, tem mais gente interessada, não vê que assim trata a menina mal?", e vão aconselhá-la "Depois não adianta chorar uma semana inteira e me ligar achando que posso dormir uma noite lá e consolar você". É sempre a mesma coisa, mas é que, sei lá, as coisas parecem menos complicadas enquanto a gente se beija. (Gabito Nunes)
 
 
ACRYLIC ON CANVAS
Letra: Renato Russo
Música: Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Renato Rocha/ Marcelo Bonfá

É saudade, então
E mais uma vez
De você fiz o desenho
Mais perfeito que se fez

Os traços copiei
Do que não aconteceu
As cores que escolhi
Dentre as tintas que inventei

Misturei com a promessa
Que nós dois nunca fizemos
De um dia sermos três

Trabalhei você
Em luz e sombra

E era sempre:
"-Não foi por mal.
  -Eu juro que nunca quis deixar você tão triste"

Sempre as mesmas "disculpas"
E desculpas nem sempre são sinceras
Quase nunca são.

Preparei a minha tela
Com pedaços de lençóis
Que não chegamos a sujar

A armação fiz com madeira
Da janela do seu quarto
Do portão da sua casa
Fiz paleta e cavalete

E com as lágrimas que não brincaram com você
Destilei óleo de linhaça
E da sua cama arranquei pedaços
Que talhei em estiletes de tamanhos diferentes
E fiz então, pincéis com seus cabelos

Fiz carvão do batom que roubei de você
E com ele marquei dois pontos de fuga
E rabisquei meu horizonte.

E era sempre:
"-Não foi por mal.
  -Eu juro que não foi por mal, eu não queria machucar você.
Prometo que isso não vai acontecer mais uma vez"

E era sempre, sempre o mesmo novamente
A mesma traição

Às vezes é difícil esquecer:
"-Sinto muito, ela não mora mais aqui".

Mas então porque eu finjo
Que acredito no que invento
Nada disso aconteceu assim
Não foi desse jeito.

Ninguém sofreu
E é só você
Que provoca essa saudade vazia
Tentando pintar essas flores com o nome
De Amor-Perfeito e Não-Te-Esqueças-De-Mim.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Na casa dele

Foi sábado passado. Estava um dia frio (bem frio para os meus padrões cearenses) e chovia. Uma chuvinha fina, dessas que parecem tristeza, que me remetem imediatamente ao banzo de alguém que sofre sem nem entender direito o porquê. Eu tinha tentado contatar um alguém que me informasse o endereço preciso. Minhas buscas internéticas foram em vão. E, naquela manhã, ao abrir o facebook, a resposta de que eu precisava tanto estava ali. Ainda dava tempo! Joguei tudo no google maps e memorizei aqueles esquadros.
 
Corri para o banheiro. Usei meus apetrechos todos e me vesti como se fosse encontrar um amigo de longa data. Parece ridículo até contando agora, meio patético, talvez. Eu sei que entrei no táxi e pedi para me levar até a Av. Getulio Vargas e me deixar na quadra anterior à rua José de Alencar. Desci no Menino Deus dele e fiquei pensando, enquanto andava até à rua onde morou, quantas vezes ele passou por ali a pé, com as mãos enfiadas nos bolsos, tentando escapar do frio de Porto Alegre, com a cabeça girando em pensamentos e palavras e textos e contos e dores... Fiquei pensando, enquanto admirava as árvores frondosas e floridas, os prédios baixos sem muros, a rua de calçamento, as senhorinhas andando lentamente, o moço que passeava com um cachorro, que ele esteve ali, respirou ali, viveu ali seus últimos dias. Sim, era como se eu o conhecesse e como se tivesse saudade dele, alguém que quando descobri que existia nem existia mais. Pelo menos, não aqui.
 
Entrei na Rua Oscar Bittencourt e procurei o sobrado da família. Se tivessem me dado somente o nome da rua, eu a teria percorrido inteira e teria descoberto, pelas imagens que já havia visto, que era ali. A casa estava diferente, com ares mais modernos, com um verde mais vibrante colorindo a fachada. Havia carros na garagem e era estranho ver a movimentação das pessoas, uma mangueira ligada, uma piscina ao fundo. Não vi a placa com a frase dele que deveria estar lá. O jardim não é mais o mesmo, tiraram a árvore da frente, mas ainda guarda algumas roseiras. A janela no andar superior ainda abre por cima dele e deve ser uma delícia amanhecer por ali nos dias mais quentes.
 
Eu parei em frente à casa dele, sentei na calçada por alguns minutos e deixei minha cabeça abstrair um pouco dos meus problemas, das minhas dores, dos meus dissabores todos. Eu sentei e parecia que eu o conhecia enfim. Depois de tanto dividido, depois de tanto que me identifiquei, depois de tanto que li sobre, depois de tudo que vivi e ele viveu, depois do que ele escrevera antes mesmo de acontecer em mim, eu estava ali. Lacrimejei porque eu sei que a essência dele era de dor, de esperança e de intensidade, esse mesmo material de que sou feita. E pedi, em silêncio, para que dali em diante que seja doce, que seja doce, que seja doce para mim e para ele, onde quer que esteja.
 
 
PS: Visitei a casa de Caio Fernando Abreu em Porto Alegre no último sábado 25/08/2012, mais de 16 anos após a morte dele.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Gabito Nunes

"São boas lembranças, mas agora estou de mudança. Vou deixar algumas memórias pra trás, não fica bem carregar tudo para um novo lugar. Mas também isso não quer dizer que vou me esquecer de vez, eu ainda vou passar por aqui. O que eu sempre achei que seria casa, agora virou caminho."

 

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Promessa é dívida

Sei que estou sumida, mas é que a vida tá uma loucura. Precisando manter o foco em outras coisas, sobra pouco tempo para voltar aqui. Mas eu prometi e está aqui o pagamento da promessa: a foto das canecas que eles fizeram para o dia dos Pais e me homenagearam. É lindo de ver. Confesso que me emocionei quando o Matheus chegou falando que o presente era para o Dia dos Pais, mas como o pai dele havia morrido, ele queria entregar pra mim. Foi lindo ver, no cartão do Dia dos Pais, ele escrever: "Mamãe, te amo!". Continua sendo surreal a data, continuo muitas vezes com um entalo na garganta e sem entender tudo isso direito. A diferença é que agora eu não procuro entender, eu me emociono (sim! MUITO!), mas eu não preciso entender nada.

 

Thi, onde quer que você esteja, saiba que eles te amam muito e que você é uma memória saudável na vida dos nossos pequenos. Te amaremos para sempre! Feliz Dis dos Pais!

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Tempo, tempo, tempo, tempo...

"Ou o tempo é Deus, ou Deus tem um implacável testa-de-ferro. Porque, não adianta, o prazo sempre vence, nunca se dá por vencido. Não perdemos tempo, perdemos para o tempo. O tempo é o agiota da vida, um empréstimo inegociável, violentamente tomado de volta, a qualquer custo. É pretensão achar que podemos suborná-lo dando tempo ao tempo, coisa que ele tem de sobra. E a charada está aí, para quem quiser ver: enquanto o tempo passa, as coisas mudam e as pessoas não." (Gabito Nunes)

 

terça-feira, 12 de junho de 2012

Pra você



"Liberdade na vida é ter um amor pra se prender. A gente reclama muito da dependência, mas como é maravilhosa a dependência, confiar no outro, confiar no outro a ponto de não somente repartir a memória, mas repartir as fantasias. Confiar no outro a ponto de esquecer quem se foi assim que o outro esteja junto, é talvez chegar em casa e contar seu dia e só sentir que teve um dia quando a gente conta como foi. É como se o ouvido da outra pessoa fosse nossos olhos. Amar é uma confissão. Amar é justamente quando um sussurro funciona melhor que um grito. Amar é não ter vergonha de nossas dúvidas, é falar uma bobagem e ainda se sentir importante. É lavar louça e nunca estar sozinho. É arrumar a cama e nunca estar sozinho. É aquela vontade danada de andar de mãos dadas durante o dia e de pés dados durante a noite." (Fabrício Carpinejar)


É meio místico e um tanto quanto surpreendente, mas eu antevi. Eu sabia que você viria. Eu sabia da força que a sua vinda causaria na minha vida, eu sabia da mudança e da transformação que me aguardavam num futuro que eu antecipava. Pode parecer bobo, clichê, juvenil até, mas eu pressenti a sua chegada e a simples possibilidade dela acontecer era paz no meu coração, era alívio no peso que carregava, era analgesia nas dores que me impediam de respirar profundo. A verdade indiscutível é que eu senti que haveria alguém como você.

Eu sabia que você chegaria e que, depois disso, os meus rumos, as minhas escolhas, os meus caminhos estariam irremediavelmente atrelados aos seus. Eu sabia disso com uma certeza que me perturbava, mas eu sabia. Quando eu comentava, na minha rodinha de amigas, em meio a pizza e vinho, das minhas certezas, das minhas convicções, elas me olhavam com cara de espanto e incredulidade. Muitas disseram que eu poderia estar certa, mas que você não era esse alguém de quem eu falava. Eu sabia! Dentro de mim havia essa esperança que não convalescia, havia um pressentimento inarredável, havia a cer-te-za, enfim. Nem sei como explicar e coisas assim não são explicáveis. 

Você chegou até mim e era como se eu já te esperasse há muito, muito tempo. Quando as coisas começaram a acontecer realmente, elas já tinham acontecido dentro de mim. Quando nos conhecemos, foi como se eu tivesse sobrevivido ao pior de todos os vendavais justamente para esse encontro acontecer. Eu vi seus olhos de medo, de espanto, de dúvida. Eu vi sua confusão interna, sua resistência, sua inquietude ante as coisas que revolviam dentro de você e de mim. Eu vi seus pés atrás diante dessa entrega, desse encontro, desse amor. Para mim, era tudo tão familiar, it felt like home to me, que caminhamos por um longo período descompassados, em ritmos e tempos diferentes. Eu já tinha você tão dentro de mim, que parecia estranha, intensa, entregue demais. Você me olhava com olhos lúcidos, calmos, temperados e eu olhava para você como o caminho, o futuro que eu esperava encontrar e com a urgência dos que sabem que NÃO temos todo tempo do mundo.

Que bom que nos encontramos e que, do nosso caminhar em uníssono, se fez uma música audível e bonita de viver e de ouvir. Que bom que não exitamos diante de tantos apesares e de todos os pesares que enfrentamos e carregamos conosco. Que bom que você existe e que é você, desse jeito exato, desse jeito que é só seu e que é meu. Você não sabia, mas eu sabia faz tempo, como naquelas fases de efeito que as pessoas propagam virtualmente que aquilo que tem de ser tem muita força, eu sabia da força disso tudo que tinha de ser para nós. 

A sua presença em minha vida tem qualquer coisa de mágica, de feitiço, de encatamento, tem muito de ontem, de hoje, de sempre e de para sempre. A sua presença na minha vida ainda me deixa arrepiada com as curvas com que nos deparamos pelo caminho, que nos jogam às vezes para o alto, às vezes para o fundo do poço. A sua presença em minha vida me faz pensar nos desígnios e nos mistérios daquilo que não conhecemos, mas que faz com que nossa vida se misture, se amarre e se encante  com outra vida assim. A sua presença em minha vida faz um sorriso estampar em meu rosto, aquece meu coração, me permite encher os pulmões de ar e flanar pelo mundo com a certeza de que sou alguém para mais alguém.

Sim, é incrível pensar no enigma que cerca esses encontros tão certos entre duas pessoas numa multidão e que faz com que uma antecipe a chegada da outra e sinta, logo depois do encontro, que é como se conhecessem desde sempre. Sua presença me faz pensar em ser melhor, em correr para seu abraço, em cultivar e cuidar do seu/meu/nosso lar/jardim. Sua presença em minha vida fez eu, antes descrente de tudo, voltar a perceber e até entender a mão de Deus naquilo que não nos cabe escolher, apenas aceitar. Sua presença me fez voltar a desejar, a sonhar, a rezar e agradecer ao que vem não sei de onde e acontece nem sei porquê.  Sua presença me fez pensar na oportunidade preciosa e única que é viver um amor, desses que fazem o coração descansar em paz, desses que fazem a vida mudar de rumo e devolvem a sensação de que o caminho certo é esse em que se segue.

É você, só você.
Feliz dia dos namorados! Feliz 7 meses!


segunda-feira, 11 de junho de 2012

Prenúncio

As professoras dos meninos entraram em contato comigo para informar que a escola, antes das férias do meio do ano, solicitaria que seus alunos elaborassem um desenho para o Dia dos Pais (OI??? JÁ???). A antecedência nos afazeres era por conta de que estes desenhos seriam transferidos para uma caneca que seria o presente a ser ofertado pelas crianças. E lá vou eu, com dois meses de antecedência, adentrar o tema com os meus pequenos.

Batemos altos papos quando vou colocá-los para dormir. Não foi diferente dessa vez. Estávamos conversando, já deitados no quarto deles, quando eu lembrei e introduzi o assunto:

Eu: Gente, eu queria falar sobre uma coisa com vocês. É que lá na escola vai ter a Festa do Dia dos Pais e, assim, vocês sabem que o papai de vocês já está lá no céu, do ladinho de Deus, e que não vai poder comparecer, né?

Matheus: É, mãe, a gente sabe...

Eu: Pois é... Aí, tem a festinha com a dança e tudo mais. Mas tem ainda um presentinho para o papai e as professoras vão pedir para que vocês façam um desenho. Eu queria saber se vocês querem participar, se querem fazer o presente...

Matheus: Mãe, as almas das pessoas que já morreram podem voar, né?

Eu: ...

Matheus: Então, mãe, meu pai vai descer lá do céu pra ver o dia da dança pra ele. Depois ele volta pra lá.

Thomás: Só que a gente nem pode ver ele. (sic)

Eu: Mas e o presente? Vocês vão querer fazer o presentinho mesmo sem poder entregar?

Matheus: Eu quero! E eu vou entregar pra você que é como se fosse meu pai também.


Hoje eles foram instados a fazer o tal desenho e, quando eu cheguei em casa, vieram me comunicar:

Matheus: Mãe, eu fiz o desenho do Dia dos Pais hoje.

Eu: Foi, amor? O que você desenhou?

Matheus: Ah, eu não desenhei meu pai porque ele já morreu. Então eu desenhei você.

Eu: Obrigado, amor.

Thomás: Mamãe, o A. disse que meu pai não tinha morrido, não, que ele tava na nossa casa. E eu expliquei pra ele que meu pai tá no céu e que eu queria desenhar você.

(FIM)

PS: Prometo mostrar as canequinhas quando ficarem prontas.



segunda-feira, 4 de junho de 2012

Poderia ter sido escrito por mim

Intensa, sim. Sensível, um monte. Atrevida, não nego.  
De armadura valente, essência repleta de sentir e um coração molenga, sigo cortejando flores e dissabores.
De cabelos avermelhados e esmaltes quase sempre descascados, levo na bolsa uma agenda cheia de idéias, na mente uma imaginação sem limites, na boca uma língua afiada, no documento uma idade que muitos duvidam e no peito um coração devaneador.  
Sou daquelas que sonham alto, que acreditam mesmo que o vento não esteja a favor, que buscam mesmo enxergando longe demais o ponto a ser alcançado, que tentam e não desistem até que a linha de chegada revele suas surpresas.  
Não vejo a vida com lentes cor de arco-íris. Na minha bagagem não cabem promessas nem utopias mas uma tendência desenfreada à esperança.
O que você chama de otimismo eu prefiro chamar de confiança e de fé. De um querer infinito. De uma coragem pulsante da qual me visto pra poder viver.
Já fui acometida pelo cansaço que desencoraja os sonhadores. Mas sou movida por uma teimosia e uma vontade de realizar que me põem de pé  todas as manhãs.  
As inseguranças podem até me fazer visita mas não têm morada aqui. Elas não prendem meus passos.  
Eu bem que tentei. Já quis ser diferente. Já bolei metas num papel. Esperar menos, tolerar mais. Apegar menos, abstrair mais. Me importar menos, relaxar mais. Insistir menos, dessintonizar mais. 
Não deu, não dá. 
Cada detalhe molda meus acabamentos. Cada ruína compõe meus alicerces. 
Cada estação, cada fase, cada vitória e fracasso me fizeram hoje ser quem pode muitas vezes até duvidar das pessoas e de suas intenções mas continua a apostar na vida.  
E não guardo segredos. Não teço mistérios. Minha teoria é simples. Meu sentir é exagerado. Me jogo, me lasco, me entrego, me esfolo inteira. Melhor do que viver pela metade. Amar pela metade. Acreditar pela metade.  Pra tombo há remédio, há refazer. Pra sonho desperdiçado, não. 
Por isso gasto meus sorrisos, não passo vontades, não guardo choros, não contenho gritos. Por isso insisto em desafiar o tempo e as pedras do caminho. No meio do furacão, saio devastada mas sobrevivo à tempestade. E não paro, e não me basto.
Recuar? Calar? Desistir? Verbos inexistentes no dicionário que inventei pra mim. Eu quero é pagar pra ver o final feliz acontecer. E fim.

(Yohana SanFer)


quarta-feira, 30 de maio de 2012

Tributo

Quem é meu amigo lá no face, deve ter visto que eu postei ontem o vídeo em homenagem ao Thi que passamos na Missa de Sétimo Dia dele. É um video longo (por isso está dividido em duas partes) e demoramos a rever e desmembrar em dois para caber no youtube.

O mais maravilhoso nisso tudo é que as fotos foram escolhidas por ele e as frases são dele mesmo. Era um albúm que ele tinha feito no orkut, em que ele homenageava as pessoas de que mais gostava, lembrava as inúmeras farras e falava da fase em que estávamos, com os pequenos. Eu fiz só o finalzinho, a parte dele vai até a foto do quarto do Thomás e está tudo claro no vídeo.

Dois anos e quatro meses depois do pior que poderia acontecer em minha vida, eu assisto a esse video com lágrimas nos olhos e um aperto no peito. Ver essas fotos, o sorriso, os nossos amigos e familiares e não ter ele por aqui ainda é muito louco e difícil de acreditar e de explicar também.

A Mirys pediu pra gente falar sobre amor hoje. Não encontro melhor maneira. Nele, tinha muito amor para comigo, para com os filhos, para com a família, para com os pacientes, para com os amigos e para com o mundo. Ainda me impressiona a forma como ele parecia cuidar de tudo sempre e tanto. É triste, eu sei. Só que eu sinto hoje uma tristeza boa de sentir, sem desespero, sem me cortar inteira, sem abrir crateras dentro de mim. É uma tristeza leve em vê-lo e em ouvir a música que marcou a nossa história. "Ainda assim acredito ser possível reunirmo-nos num outro tipo de vínculo".

Parte I
Parte II

terça-feira, 29 de maio de 2012

Para M.

Eu não me canso de repetir que ser feliz exige coragem. A vida vai concatenando acontecimentos, altos e baixos, céu azul e escuro do fundo do poço e as pessoas vão lidando como podem, se virando como conseguem, enfrentando e fugindo, chorando e sorrindo. Nem sempre escolher a felicidade é o caminho mais fácil. Porém, tendo passado por momentos tão difíceis, é possível perceber quão efêmera ela é e aí surge esse intento, quase passional, de agarrá-la com unhas e dentes e de prendê-la numa cápsula.
 
Não é assim que se vive, não é assim que se consome a felicidade. No fundo, todo mundo sabe. A felicidade normalmente está atrelada à liberdade de ser quem se é e de estar em paz com as próprias escolhas, ainda que o mundo inteiro critique e julgue. Felicidade tem muito mais a ver com essa coragem de se encarar a si mesmo no espelho e saber exatamente o que importa. Daí porque falo tanto de coragem. Coragem para reconhecer o que de si não se enquadra nem será como o mundo espera. Coragem para entender o que se quer, o que se ama, o que vale a pena. Coragem para enfrentar os dedos apontados, o julgamento alheio, a opinião pública e saber, de fato, o que amansa o coração, o que faz a vida colorida, o que torna o mundo encantado e lindo, o que devolve o brilho aos olhos e o sorriso aos lábios.
 
Ser feliz exige essa honestidade consigo, essa transparência que nem sempre é fácil ter. Por isso mesmo, falo de coragem. Algumas coisas inevitavelmente vão doer, algumas pessoas inevitavelmente vão falar, alguns momentos inevitavelmente serão ruins; o importante é que, no cômputo final, quando deitar a cabeça no travesseiro, reste a sensação profunda e inequívoca que é esse mesmo o lugar em que se quer estar, o caminho que se quer seguir e aí, então, o sono seja de paz e de amor.
 
TJ!
 
PS: Porque nossas conversas, vezenquando, rendem posts.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

I just don't feel like it

- You know what the weirdest part about having a job is? You have to be there every day, even on the days you don't feel like it.
- Do you not feel like it today?
- Today's fine. I just don't know how I'll feel tomorrow.

Só que não. Today is not fine. Eu dormi tarde, muito tarde, e amanheceu com chuva. Vontade gritante de ficar na minha própria cama e eu estou aqui.


segunda-feira, 21 de maio de 2012

De repente, 30

(Festa de 1 Ano)
A menininha que eu fui sonhou muito e fez muitos planos para a vida toda. Muitos deles eram bem diferentes do que efetivamente aconteceu, outros tantos eram bem iguais. A menininha que eu fui sonhou em se tornar uma mulher forte, uma profissional bem sucedida, uma pessoa reconhecida por sei lá o quê e morria de medo de não conseguir encontrar um amor nem de vivê-lo. A menininha que eu fui temia passar a vida inteirinha cuidando da parte prática da vida, da parte objetiva e racional. Ela sempre achou que essa era a parte mais fácil: dependia só dela e de uma certa determinação. A meninha que eu fui é bem diferente da mulher que me tornei.

Há algum tempo, eu achava que tinha a vida toda pela frente. E é incrível pensar que, em poucos anos, tudo se define. Muito do que eu sou, alguns grandes amigos, uma parte importante da minha história de vida, o que definiu minha personalidade, quase tudo aquilo que me faz ser quem eu sou aconteceu nesses últimos anos. Eu não sou a mesma de dez anos atrás. Eu não tenho aqueles mesmos sonhos, eu não tenho mais aqueles objetivos que agora me parecem tão rasos e sem importância. Eu não vejo tudo pela óptica do meu próprio umbigo. Eu cresci. Não sei dizer bem ao certo exatamente em que ponto a transformação aconteceu, mas há tempos eu venho me sentindo mais adulta, mais madura, mais mulher e muito mais responsável pelo que vivo.

Eu não contava que a vida fosse passar tão rápido. Até lembro bem quando me disseram, no dia em que completei 15 anos, que dali pra frente seria tudo corrido. E é verdade. Sinto que dormi e acordei aqui. E nesse sono, a vida inteira mudou. As melhores e as piores coisas aconteceram. Olho para trás e não vejo uma curva ascendente, em que as coisas vão melhorando com o passar do tempo. Eu vejo tantos altos e baixos que é até difícil contabilizar. Eu vejo um ápice bem alto e vejo um fundo do poço daqueles que é bem possível pensar que nunca mais se sairá (embora, eu nunca tenha pensado exatamente assim). Eu vejo uma história bonita, com momentos lindos e com momentos tristes.

A parte prática da vida, na verdade, aconteceu mais ou menos como programado. Eu fui pra onde queria ter ido e a caminhada continua. E isso até que é bom. Não fico com aquela sensação de que não me falta mais nada. Falta, sim, ainda há o que fazer. A parte subjetiva da vida também aconteceu, melhor do que havia sido planejado até. Houve AMOR, houve filhos, houve a família de comercial de margarina que eu sonhei pra mim. Lamento ter durado tão pouco. Lamento ter sido uma piscada e, numa curva do caminho, estilhaçaram-se as perspectivas todas. De repente, só a certeza da efemeridade das coisas mundanas. Certeza essa que me fez enxergar o mundo com um novo olhar, com uma certa urgência, com uma capacidade incrível de tornar cristalino o que importa de verdade e o que não merece nem um segundo de testa enrugada.

A coisa boa de se estar no fundo do poço mais profundo que existe (Pollyanna feelings) é que lá só se tem duas alternativas: ficar ou subir. E até se pode ficar lá no canto escuro e seguro e quente e conhecido e triste. Porém, depois de algum tempo, tudo que se quer é sair dali. E eu saí. Eu decidi e saí. Travei minhas próprias batalhas internas, briguei com meus sentimentos, pensei que não fosse capaz de suportar, pensei que era um peso bem maior do que eu seria capaz de aguentar, pensei que a vida inteira pela frente seria mera sobrevivência. Só que não. Ao sair do escuro, descobri um mundo de luz. Recuperei a fé que havia perdido em algum lugar do caminho e percebi a transformação que esse esforço causou em mim.

De repente, eu me vejo aqui, às vésperas de completar 30 anos, em um lugar bem diferente daquele planejado há dez, quinze anos. Orgulho de ser quem eu sou, de não ter desistido naquele ponto em que isso foi opção, de ter priorizado o que era prioridade, de ter enfrentado a realidade dolorida e colorida que me foi imposta. Sinto-me abençoada por ter as pessoas que eu tenho por perto, por receber tanto carinho e tanto amor, por conseguir reconstruir minha vida sem andar pelo mundo como se carregasse o peso dele nas costas. Acredito que não é sorte ter encontrado de novo um amor. É fruto de escolhas íntimas feitas lá atrás, é decorrência dessa esperança de que algo bom estava ali na frente. Eu não fechei meus olhos para a vida e ela retribuiu em forma de surpresa. Outros presentes me foram lançados no caminho e que bom que eu escolhi abri-los e vivê-los. Sinto que, de tudo, tirei lições valiosas e aprendi a arte da resiliência.

Muitas coisas ainda doem. Para muitas delas, o que se pode fazer é apenas e tão somente encontrar uma forma de conviver, sem mascará-las, sem escondê-las. Eu estou em paz comigo mesma e continuo otimista demais, acreditando sempre que o pior já passou faz tempo e que agora a vida é de glória. Tenho muito mais a agradecer do que a lamentar. Tenho muito a celebrar, a comemorar.  Eu sempre soube que a felicidade estava no percurso, no caminho que se trilha com alegria ao lado de quem se ama. Eu amo as pessoas que vão de mãos dadas comigo e eu estou feliz. Que venha, PELO MENOS, mais uns sessenta anos!