quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Reflexão

A vida não é o que acontece nesse espaço limitado de quatro linhas retas. A vida não é o que está exposto na rede social. A vida não é aquilo que as pessoas conseguem saber com cliques. Acredite em mim, o que é importante até aparece lá, mas o que é verdadeiro existe aqui fora, no mundo real. A vida é aquilo que acontece enquanto você curte e comenta. Não abro mão de encontros, abraços beeem apertados, olhos nos olhos e beijos estalados... Não abro mão de viver de verdade. O que está exposto aqui e lá é apenas uma janela da frente da casa. Tem muito mais coisa, muito mais vãos, muito mais cômodos em que só aqueles que são convidados a entrar têm o (des?)prazer de conhecer. Há porões que quase ninguém adentra, há sótãos com belas vistas, há um quartinho nos fundos que é só meu. Não adianta. Essa exposição toda não substitui o que deveria acontecer de verdade. Sim, diminui as distâncias, facilita o contato, mas não dá para ser só assim. Nesse ponto, estou de acordo com o Gabito.
 
Revolução?


Voltando pra casa no engarrafamento das dezenove horas. Um ônibus emparelha ao lado do meu. Conto as janelas, são nove pessoas, três cochilam, uma analisa o leva-e-traz da calçada. As outras cinco fuçam em seus telefones. Curtem, compartilham, atualizam, comunicam. Estamos na era revolucionária. Geração fone de ouvido – o poder da invisibilidade e do autismo opcional.

Desço na parada do shopping, preciso de uma camisa nova e de um presente. As luzes de Natal me dão engulhos. Preciso ser rápido, e o caminhar não flui. Preciso ficar desviando das garotas com suas caras enfiadas nos seus espertofones, lendo recados, comunicando, com medo de estar perdendo alguma coisa. Que filme você nunca viu? Que festa a gente nunca foi? Quem comeu quem? Quem caiu na rede? O que nós tanto temos a perder?

Vão dizer. Não é só um site, é um encurtador de distâncias. Mas eu não posso sentir o cheiro de talco da minha vó que mora longe, nem o som dela arrastando as sandálias antes de ir dormir. Um avatar e um retrato na lápide dá na mesma. Meus poucos e caros amigos, onde estão? Não faço questão de vê-los, qual a motivação? Sinto que já sei tudo o que eu preciso saber sobre eles. Me esforço, proponho um drinque e um papo mais tarde. Mais tarde, quando? No mês? Ainda em 2012? HOJE? Não dá. E se eu mandar instalar um botão bem no meio da minha cara? Eu fico mais interessante?

O que era pra ser uma rede social virou nada mais que um comparador de vidas. Olha eu, em frente à Torre Eiffel. Olha o meu novo corte de cabelo. Eu curto essa marca de cerveja. Estou em um relacionamento sério. Eu não presto. Eu sou legal. Chove e eu me sinto tão só. Queria que você fosse tão feliz quanto eu sou. Troquei de emprego. Troquei de torradeira. Troquei de sexo. O mundo entre aspas. O universo conspira ao meu pavor.

Sorria, você está se autofilmando. Todo dia tem a hora da sessão de fotografias. Ensaio para a Caras e as bocas e os decotes. Ah, mas uma foto faz de um momento inesquecível. Puxa, que porcaria de memória é essa sua. Postar é viver. Agora, a participação do internauta. Nunca foi tão fácil falar. Era a desmassificação da cultura, agora é só uma extensão do que passa na televisão. Comentarista de novela, esse mala sou eu.

Me escuta. Você precisa desse aparelho novo, o seu método de se importar com seus camaradinhas está ultrapassado, amigo. Pois é. Ninguém mais atravessa a cidade para encontrar alguém. Assine o nosso plano e pague para falar. Com apenas 59,90 mensais você pode ter um milhão de amigos e frequentar salas de bate-papo onde não cobramos 10 por cento, não tem goteira e ninguém corre risco de contrair herpes. Amigo é coisa pra se guardar na barra lateral, dentro da tela do computador.

Agora é sério. Você precisa desse telefone, vai por mim. Ele é três gigas mais smart do que você. Olha como são jovens, felizes e saltitantes as pessoas no meu comercial. Com mais um centavo você leva esse exclusivo aplicativo que simula um beijo de língua com qualquer pessoa que esteja na Romênia.

Você precisa de uma internet ilimitada, senão como vai protestar a favor de índios e contra a carne vermelha? Vamos lá, todos nós, rumo ao senado federal derrubar a corrupção, caminhando e cantando e seguindo no Twitter. Vamos tomar as ruas pelo Google Street View, cada um na sua. Nunca fomos tão livres no meio de tantas grades. Ué, você não queria mudar o mundo? Assine aqui e fique por dentro de nossas grandes novidades.

4 comentários:

Idê Maciel disse...

Gabito... ah! moço genial... amei! E cada dia você me faz conhecer um pouco mais da sua escrita contemporânea e verdadeira, porém graças a essa realidade virtual pude chegar até o escritor. Contradições.É a vida!

Unknown disse...

Sempre digo que o facebook é a terra da fantasia: todo mundo lá é feliz, jovem, bonito e antenado. O texto de Gabito é totalmente coerente.

Isabelle Gois disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Isabelle Gois disse...

Concordo demais com o texto e com a pessoa acima também. Facebook é terra de fantasia, do filtro que geralmente todo mundo é lindo, perfeito e feliz. Como uma vitrine da vida de todo mundo. Gosto de lá, uso muito o face, mas às vezes me incomoda, é um amor desamor, hehe..Mas sigo tentando pegar o lado bom. Compartilhei o link no face.
Bjos, Marcele!