segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Na casa dele

Foi sábado passado. Estava um dia frio (bem frio para os meus padrões cearenses) e chovia. Uma chuvinha fina, dessas que parecem tristeza, que me remetem imediatamente ao banzo de alguém que sofre sem nem entender direito o porquê. Eu tinha tentado contatar um alguém que me informasse o endereço preciso. Minhas buscas internéticas foram em vão. E, naquela manhã, ao abrir o facebook, a resposta de que eu precisava tanto estava ali. Ainda dava tempo! Joguei tudo no google maps e memorizei aqueles esquadros.
 
Corri para o banheiro. Usei meus apetrechos todos e me vesti como se fosse encontrar um amigo de longa data. Parece ridículo até contando agora, meio patético, talvez. Eu sei que entrei no táxi e pedi para me levar até a Av. Getulio Vargas e me deixar na quadra anterior à rua José de Alencar. Desci no Menino Deus dele e fiquei pensando, enquanto andava até à rua onde morou, quantas vezes ele passou por ali a pé, com as mãos enfiadas nos bolsos, tentando escapar do frio de Porto Alegre, com a cabeça girando em pensamentos e palavras e textos e contos e dores... Fiquei pensando, enquanto admirava as árvores frondosas e floridas, os prédios baixos sem muros, a rua de calçamento, as senhorinhas andando lentamente, o moço que passeava com um cachorro, que ele esteve ali, respirou ali, viveu ali seus últimos dias. Sim, era como se eu o conhecesse e como se tivesse saudade dele, alguém que quando descobri que existia nem existia mais. Pelo menos, não aqui.
 
Entrei na Rua Oscar Bittencourt e procurei o sobrado da família. Se tivessem me dado somente o nome da rua, eu a teria percorrido inteira e teria descoberto, pelas imagens que já havia visto, que era ali. A casa estava diferente, com ares mais modernos, com um verde mais vibrante colorindo a fachada. Havia carros na garagem e era estranho ver a movimentação das pessoas, uma mangueira ligada, uma piscina ao fundo. Não vi a placa com a frase dele que deveria estar lá. O jardim não é mais o mesmo, tiraram a árvore da frente, mas ainda guarda algumas roseiras. A janela no andar superior ainda abre por cima dele e deve ser uma delícia amanhecer por ali nos dias mais quentes.
 
Eu parei em frente à casa dele, sentei na calçada por alguns minutos e deixei minha cabeça abstrair um pouco dos meus problemas, das minhas dores, dos meus dissabores todos. Eu sentei e parecia que eu o conhecia enfim. Depois de tanto dividido, depois de tanto que me identifiquei, depois de tanto que li sobre, depois de tudo que vivi e ele viveu, depois do que ele escrevera antes mesmo de acontecer em mim, eu estava ali. Lacrimejei porque eu sei que a essência dele era de dor, de esperança e de intensidade, esse mesmo material de que sou feita. E pedi, em silêncio, para que dali em diante que seja doce, que seja doce, que seja doce para mim e para ele, onde quer que esteja.
 
 
PS: Visitei a casa de Caio Fernando Abreu em Porto Alegre no último sábado 25/08/2012, mais de 16 anos após a morte dele.

3 comentários:

Raquel Duarte disse...

Que legal, Marcele! Não conheço tão bem o Caio Fernando Abreu como vc, mas deve ter sido uma experiência emocionante. Por um momento vc se sentiu pertinho dele, né? Adoro quando vc compartilha as novidades, viu? Escreva sempre! Beijos!!! =)

Das coisas que vejo e gosto. disse...

Eu imagino a sua emoção.

Beijos!!!

Saudade das tuas postagens, viu?


Selma

Isabelle Gois disse...

Que emocionante conhecer a casa dele :)) Bjs, Isabelle