sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Inspirando e Expirando e Contando

Eu não tenho paciência para incompetência. Não que eu me ache infalível e o suprassumo da eficiência. Não sou mesmo. É que lidar com gente incompetente e que ainda quer justificar a incompetência com argumentos ridículos realmente me exaspera. Como se já não bastasse a burocracia toda que emperra esse país, que faz com que tudo tenha que estar por escrito e autenticado e com firma reconhecida, que faz com que tudo demore séculos, que a assinatura de um contrato contenha mais anexos que as páginas da Bíblia, que se tenha que provar que se é quem se é, que se ganha o que se ganha e que se faz o que se faz; que obriga as pessoas a assinar a mesma coisa quatro mil vezes e a pagar absurdos em emolumentos e taxas; eu ainda tenho que lidar com a incompetência humana. Falta-me paciência, falta-me estômago. Vontade de falar palavrões e de não precisar disso. A M&RD@ é que eu preciso e tenho que engolir o sapo e respirar fundo e contar até dois mil quinhentos e quarenta e dois para ver se essa explosão amaina.
 
Vamos lá: um, dois, três, quatro, cinco...

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Joie de vivre

Nem sempre tudo dá certo. Nem sempre a vida tá nos eixos, nos conformes. Nem sempre a gente vive em plenitude. Quase ninguém é capaz de olhar ao redor e se sentir completo. Quase ninguém consegue reconhecer a perfeição daquilo que dispõe. A gente tem essa tendência esdrúxula de se concentrar no que falta, nos buracos e nas feridas abertos, no que não está.

Recebi por email estes dias um texto de Contardo Calligaris cujo título é "Felicidade e Alegria". Isso muito me interessa, pensei. O texto começa com uma ementa que diz: "Ser alegre (muito melhor do que ser feliz) é gostar de viver mesmo quando a vida nos castiga". E eu concordo. Dá pra se ter alegria no meio do pior momento da vida, eu já contei esses causos lá no outro blog. A gente tá aqui é pra viver mesmo, é pra provar, é pra tirar de cada experiência um pouco mais, uma lição. A gente tá aqui pra crescer. Não, eu não sou espírita e não acho que esse é um mundo de expiações. Muito pelo contrário, acho que estamos aqui para ser feliz e só.

Para mim, ser feliz justifica a nossa existência inteira muito mais que a promessa da vida além da morte. Ser feliz, fazer o bem, distribuir alegria, amar e conviver com as pessoas é o motivo de que precisamos para a vida. É o cerne, é o centro de tudo. Justamente porque acho que ser feliz é o foco, acho também que a gente precisa encarar com alegria tudo o que vier, inclusive o que não for bom. Não intento (nem poderia) diminuir as dores, as correntes, as cruzes e os pesos que arrastamos ao longo da nossa existência. Não é isso.

O que discuto é até que ponto vale a pena a gente se prender nisso - nas dores, nas correntes, nas cruzes e nos pesos; se há um mundo de possibilidades aberto. Eu acredito no poder do ser humano, eu acredito na capacidade de superação, eu acredito na força interior, mas mais que isso tudo, eu acredito que é uma questão de escolha pessoal. É de dentro pra fora que essa alegria para superar tem que acontecer. E, não mais que de repente, a alegria escolhida individualmente contagia as pessoas ao redor e faz o mundo um lugar melhor. Calligariz coaduna desse pensamento: "Ora, nossa alegria encanta o mundo, justamente, porque ela enxerga e nos permite sentir o que há de extraordinário na vida de cada dia, como ela é".

Depois de tudo, eu entendi que não é preciso forças sobrenaturais, nem milhões em contas nominais, nem conglomerados materiais, nem luxo nem conforto demais, nem inúmeros bens materiais. Depois de tudo, eu tive certeza do que antes eu só desconfiava: o que há de mais importante no mundo, de mais valoroso não é emprego, bens, nem suor do nosso rosto. O que faz valer a pena são as pessoas e a maneira como tocamos e somos tocados pelo cruzamento de vidas e isso só é possível quando se tem essa alegria de viver.

Por Calligaris: "Para reencantar o mundo, é suficiente descobrir que o verdadeiro encanto da vida é a vida mesmo".

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O que é, o que é?

O que é, o que é que diminui as distâncias e alarga o campo de visão? Que cria uma tensão em torno das milhares de letrinhas saltando na tela? Que causa frio na barriga quando do aviso sonoro de mensagem na caixa de entrada do celular? Que causa sorriso espontâneo quando o visor pisca aquela palavra?

O que é, o que é que que vira pensamento recorrente? Que traz certeza de futuro do presente? Que cria entrelinhas e enredos, todos com finais felizes e sorrisos estampados? Que devolve colorido ao cinza impregnado? Que faz vulcão em deserto?

O que é, o que é que causa uma vontade persistente de dividir os acontecimentos da vida, ordinários e extraordinários? Que cria vontade de ficar perto e disponível sempre, para sempre? Que causa frio na barriga quando diante de confissões e de segredos? Que causa arrepio e ansiedade no silêncio partilhado?

O que é, o que é que causa medo e derruba redomas de proteção? Que pode até gerar tentativa de fuga do inescapável?  Que cria negativas para as evidências? Que submete a lógica e a racionalidade aos apelos estapafúrdios e insensatos do órgão que pulsa?

O que é, o que é que causa falta de ar, arritmia, espasmos, vertigem, tontura e moleza no corpo e não há remédio que cure? Que faz com que se queira testar a lei física de que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço? Que transforma a maneira de ver o mundo ao redor e de se enxergar também?

O que é, o que é que devolve a auto estima? Que transmuta os ideias? Que converte convicções em absolutas incertezas? Que causa revisão de valores e prioridades? Que joga no rosto um sorriso bobo e um olhar perdido?

O que é, o que é que traz razão e sentido para viver e lutar?


Aquilo que dá no coração
E nos joga nessa sinuca
Que faz perder o ar e a razão
E arrepia o pelo da nuca
Aquilo reage em cadeia
E incendeia o corpo inteiro
Faísca, risca, trisca, arrodeia
Dispara o rito certeiro
Avassalador. Chega sem avisar
Toma de assalto, atropela
Vela de incendiar
Arrebatador. Vem de qualquer lugar
Chega, nem pede licença
Avança sem ponderar
Aquilo bate, ilumina
Invade a retina, retém no olhar
O lance que laça na hora
Aqui e agora, futuro não há
Aquilo se pega de jeito
Te dá um sacode pra lá de além
O mundo muda, estremece
O caos acontece não poupa ninguém
Avassalador chega sem avisar
Toma de assalto, atropela
Vela de incendiar
Arrebatador. Vem de qualquer lugar
Chega, nem pede licença
Avança sem ponderar...
(Lenine _ Aquilo que dá no coração)

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Saudade do que ainda virá também

Meu nome hoje é saudade.
E o sobrenome me explica: tenho saudade do que ainda sei que virá.
E você me chama pelo melhor apelido de todos: esperança.
Não há outro modo de ser.

From: Rainha de Copas

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Persistirei no que pressinto*

Eu não preciso saber do seu passado, nem das histórias das cicatrizes que traz. Eu não preciso destrinchar suas memórias mais antigas. Não preciso fazer perguntas indevidas. Não preciso entender. Eu só preciso perceber que veio, que chegou, que invadiu minha vida e que, com isso, transformará tudo que me cerca num colorido vibrante e inesquecível. Eu esperava, ansiava por você desde antes de saber que. Eu aguardava sua chegada desde muito antes. E esse encontro devolverá a mim o desejo de viver, de ser, de estar. Pressinto que você está perto e já abri todos os meus cômodos para sua chegada. Eu vejo os sinais e espero o abre-alas. Pressinto o que nos move e moverá por muito tempo. Pressinto o que carregaremos e construiremos em uníssono. Pressinto sua vida na minha vida nas nossas vidas. Pressinto um lar repleto e algazarras. Pressinto o sentimento inequívoco, perene, maduro. Pressinto a felicidade compartilhada por um, por dois, por três, por mais. Meus pressentimentos me permitem antever o que eu nem sei quando vai existir. A certeza de que existirá está em mim. Antevejo os diálogos que travaremos. Antessonho os sonhos de dois, de três, de quatro. Antessei o que diremos um ao outro nas noites de primavera-verão-outono-inverno. Eu sei que está aí em algum lugar e que, nesse momento, sua vida se prepara para se chocar com a minha. Eu sei que inescapável. E que chegue assim, súbito-suave, para ficar. E que não haja escapes, dúvidas, problemas e confusões; mas se houver, que sejam pulados como as ondas do mar. Pressinto sua chegada, eu escuto os passos ao longe e sei que, de algum modo, as engrenagens do caos já rodam a nosso favor. Falta só a gente se (re)conhecer.

* "Não te farei nenhuma pergunta embora precisasse não para te definir ou para te compreender não preciso saber de onde vens assim como para me definires ou me compreenderes não precisas de nenhum dado concreto mas eu não te defino nem te compreendo apenas sei que chegaste e que esta tua chegada modificará em mim todas as coisas que se tornaram suaves todas as cordialidades ou amenidades que contruí nesse tempo de absoluta sede ansiava por ti como quem anseia pela salvação ou pela perdição porque qualquer coisa poderia me salvar desta imobilidade que me devasta por dentro te direi apenas para sobreviver mas já não quero sobreviver já não quero apenas ir adiante é preciso que qualquer coisa abata essa letargia porque já não admiro precariedades porque não sei o que digo nem o que sinto mas persistirei no que pressinto". (Caio Fernando Abreu, O Afogado in: O Ovo Apunhalado, p. 92)

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Dizendo sem dizer

Eu queria falar tudo, mas fica tudo entalado na garganta. Eu queria dizer de uma vez por todas, colocar contra a parede, vomitar o que revira dentro de mim na cara e esperar pelo ou-vai-ou-racha, mesmo antevendo o racha. Eu não tenho coragem de fazer essa pressão. Eu não tenho coragem de explodir. Eu não me deixo estourar porque eu sei da acidez das palavras e sei também do estrago que os respingos poderão causar ao meu redor. Eu sei do que me falta, eu sei dos meus buracos, eu sei dos leões com que luto diariamente; e isso tudo, por si só, já é coisa demais para eu lidar. Mas eu ainda tenho essa pressão aqui dentro, esse anseio sem tamanho, esse desejo que inflama. Eu aguento, eu suporto essa dor com doses pequenas e homeopáticas de reciprocidade. Não, você não sabe do que eu estou falando. Eu nunca deixei isso claro. Mas esse post aqui é só pra dizer que se eu pudesse, se eu soubesse que não racharia, eu falaria.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

E quem irá dizer que não existe razão?

Seia muito bom se fosse simples, se o amor fosse um cálculo aritmético ou um checklist. Bonito - check; Alto - check; ombros largos - check; gosta de criança - check; solteiro - check... Ou algo como: bonito + alto + ombros largos + afeição por criança... = amor. Mas não, não é. Ele é todo enrolado.
 
Você pode esbarrar com alguém que preenche todos os requisitos do seu checklist e que ainda acha você a pessoa mais fantástica do mundo e (pffff) num sentir nada, não acelerar o coração. Você pode cruzar com alguém aparentemente nada a ver com você, nem bonito, nem alto, nem carismático, meio machista, meio metido, que olha para você com certa frieza e (pa pum) cair de amores. Você pode estar com sono, descabelada, suada, de mau humor e o amor simplesmente sentar do seu lado no bandejão. Ou sair produzidíssima, toda trabalhada na maquiagem MAC, para um balada e a coisa toda acontecer no meio da iluminação frenética. Vai saber!
 
Renato Russo costumava dizer que não existe razão nas coisas feitas pelo coração. E num é? num é? Não existe mesmo. Às vezes, a gente tá super distraído, cansado até de procurar, ou, como eu, sem saber como começar, como destravar. Às vezes, a gente tá na caça, na luta, na guerra, como dizia minha avó, escacaviando cada lugarzinho atrás de. Mas a verdade, em assuntos do coração, é que não há regra, não há cálculo, não há "modus operandi" para que a coisa aconteça. O amor acontece quando acontece e nem adianta estrebuchar, sapatear no chão e fazer birra.
 
O melhor de tudo é que, quando a gente encontra, acabam as equações, as estratégias, os esquemas, os cálculos, o checklist... Não tem mais freio de mão puxado, nem paraquedas reserva. Não tem mais mureta de proteção, armadura ou máscara capaz de encobrir ou evitar o sentimento. Como diz a letra da canção, por ser amor, invade e fim.
 
 
 
 

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Gladiador

Ela veste a armadura e leva as armas em punho como se fosse enfrentar leões em guerras medievais. Ela ergue castelos, muralhas e fortalezas em torno de si para manter à distância quem quer que possa descompassar o compasso ritmado a que ela se acostumou, tocando sozinha a banda. Ela divulga uma imagem deturpada, distorcida, e, no mais das vezes, até aterradora. Mas o que ninguém sabe é que, atrás da propaganda, depois dos muros e embaixo da armadura, se esconde alguém que só quer ser "nocauteada por um beijo de direita, que esmague coração e discernimento"*, alguém que a faça querer desistir da luta "contra o poder do amor e caia nos pés do vencedor"** rendida, vencida, entregue. Ela só quer implodir as muralhas e desvestir a armadura. Ela só quer transparecer esse interior frágil, dócil, carente e romântico escondido no carão de gladiador. É só isso.
 
* From: http://oquemaisninguemve.blogspot.com/
** Samurai - Djavan

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

O amor quando é amor é amor

No meio das defesas todas, havia algo que não se defendia, não sabia como se defender, não conseguiria, ainda que tentasse. Havia algo delicioso de se sentir que escorregava de dentro da gente e se esparramava no sorriso. Escapulia no olhar. Cantava no silêncio. Fazia florescer pés de sol no tempo encantado em que estávamos juntos. Dispensava nomes e entendimentos. Havia algo que tinha um cheiro inconfundível de alegria. De vida abraçada. De chuva quando beija a aridez. De lua quando é cheia e o céu diz estrelas. Um cheiro da paz risonha do encontro que é bom.

No meio das defesas todas, havia algo que não se defendia, não sabia como se defender, não conseguiria, ainda que tentasse. Havia algo maravilhoso para ser dado e recebido, daqueles presentes que a vida embrulha com os seus papéis mais bonitos e entrega, toda contente, a duas pessoas. Havia algo para ser trocado, e troca é quando duas vidas se sentem olhadas ao mesmo tempo. Havia algo que fazia um coração falar com o outro, ouvir o que era dito, gostar do que era dito, rir com o que era dito, sentir-se espelhado, sentir-se enternecido, querer brincar, muito além do que qualquer palavra, por qualquer motivo, por qualquer defesa, tentasse, em vão, esclarecer. Uma vontade de parar todos os relógios do mundo para eternizar a dádiva da presença compartilhada, e a impressão de que às vezes até conseguíamos.

No meio das defesas todas, havia algo que não se defendia, não sabia como se defender, não conseguiria, ainda que tentasse. Havia algo que escapava, ileso, dos artifícios todos, todos tolos, que a razão arranjava para não deixar o amor fluir com a beleza dele, o chamado dele, a natureza dele. Amor sempre arruma brecha para escoar entre os dedos temerosos do medo. Pode ser que a gente sinta tanto receio e se proteja tanto, as feridas antigas cicatrizadas coisíssima nenhuma, que nem consiga vivê-lo em sua plenitude. Mas que ele escoa, escoa. Esparrama no sorriso. Escapole no olhar. Canta no silêncio. Diz.

No meio das defesas todas, havia algo que não se defendia, não sabia como se defender, não conseguiria, ainda que tentasse. Havia algo que delatava o desejo, os quarteirões da gente todos iluminados com o fogo feliz da sensualidade, iluminadas as ruas todas que dão acesso ao lugar onde o corpo e a alma costumam se encontrar e dançar numa única canção. Havia algo que não podia ser negado, preterido, amordaçado. Algo que inaugura primavera, tanto faz se é inverno. Algo raro e precioso. Que é perfeito, ao mesmo tempo que consegue incluir todas as imperfeições. Que é lindo, ao mesmo tempo que consegue integrar as esquisitices todas que gente também tem. Havia amor e, de um jeito ou de outro, sabíamos sem nos dizer, havia chegado pra ficar.

O amor quando é amor é amor.
(Encontro - Ana Jácomo)
Eu não mudaria nenhuma linha do que está escrito. Torcendo muito para que aconteça.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Tudo quer me revelar

Tudo aqui quer me revelar
Minha letra, minha roupa
Meu paladar
O que eu não digo, o que eu afirmo
Onde eu gosto de ficar
Quando amanheço, quando me esqueço
Quando morro de medo do mar

Tudo aqui
Quer me revelar
Unhas roídas
Ausências, visitas
Cores na sala de estar
O que eu procuro
O que eu rejeito
O que eu nunca vou recusar

Tudo em mim
Quer me revelar
Tudo em mim quer me revelar
Meu grito, meu beijo
Meu jeito de ser

O que me preocupa, o que me ajuda
O que eu escolho pra amar
Quando amanheço, quando me esqueço
Quando morro de medo do mar

(Zélia Duncan)

E faz muito sentido.