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quinta-feira, 5 de maio de 2011

Laissez passer...

Eu sei que não faz sentido, eu sei que precipitado, eu sei que pareço louca, bipolar, frágil e carente demais, eu sei que não é para ser assim, eu sei que nem tenho esse direito, eu sei que é um passo grande demais, eu sei que é arriscado e louco, eu sei que pareço um tanto quanto perturbada e insegura, eu sei que a minha convicção não convence, eu sei que não parece que estou certa, eu sei que eu cambaleio até nos argumentos, eu sei que as minhas palavras não são tão firmes, eu sei que deveria ser menos impulsiva, eu sei que não deveria sentir dessa forma, eu sei que deveria tomar mais cuidado com o que digo, eu sei que não deveria ser cobrança, ser pesado, ser uma demanda, ser o que é. Eu sei. É que quando dói, a vista embaça e os sentidos se perdem. Eu sempre prefiro calar a falar, eu sempre prefiro esperar passar. E passa. Sempre passa. Taí uma coisa que eu aprendi: qualquer coisa passa. Não no sentido de se perder para sempre num breu da memória, mas simplesmente sai de foco e dá espaço para urgências, para outras coisas que são prementes. E, uma vez passado o que parecia insuportável, a gente consegue seguir tranquilo, quase perfeitamente. Deixa passar. Laissez tomber, laissez passer.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Só uma palavra me devora: aquela que meu coração não diz.*

A ideia não é entender, mas sentir. Não é dar nome, classificar, enfileirar no rol disso ou daquilo outro, mas viver. A ideia não é obrigação, é prazer. A ideia não é cobrança, é querer. A ideia é beijo, ombro, abraço, mão... A ideia é se permitir. Até quando? Em que circunstâncias? Em que termos? Eu não sei nem quero saber.

Se eu fosse corajosa, bem resolvida, confiante, eu diria tudo que calo, tudo que entala na minha garganta por conta de um medo absurdo da rejeição. Se eu confiasse bem em mim, se minha auto estima ao menos existisse, eu contaria como eu me sinto, da sensação de derretimento, das minhas vontades impulsivas, dos meus desejos mais secretos. Se eu fosse outra mulher, em outras circunstâncias, talvez nem tivessem razão de ser essa insegurança que me assola e essas negações que me deprimem e essas vendas que me imponho pra controlar minhas explosões.

Eu sou só o que eu posso ser e você também. Humana demais para não sentir. Controlada demais para me jogar no abismo infinito. Carente demais para não querer. Envolvida demais para perceber. Fiquei tão soterrada nessa avalanche de sentimentos, nessa inundação, que demorei a recobrar o ar dos meus próprios pulmões e, ainda assim, eu não quero soltar sua mão. As incertezas que envolvem esse laço, as opiniões nem sempre estimulantes, os pequenos machucados cotidianos causados pelo não saber tão a fundo são muito pequenos perto da certeza que me impulsiona.

Não ter, não viver, não ver, não ouvir, não sentir certamente seria insuportável demais. Certeza de que tudo aquilo que se vê e se percebe é parte mínima do que efetivamente sinto. Certeza também de que poderia ser muito mais. Certeza também de que muitas águas ainda vão passar por baixo da ponte antes de se chegar na bifurcação do caminho em que será preciso decidir se tudo ou nada. Enquanto isso, segura minha mão.

*"Só uma coisa me entristece
O beijo de amor que não roubei
A jura secreta que não fiz
A briga de amor que não causei
Nada do que posso me alucina
Tanto quanto o que não fiz
Nada do que quero me suprime
De que por não saber ainda não quis
Só uma palavra me devora
Aquela que meu coração não diz
Só o que me cega, o que me faz
infeliz
É o brilho do olhar que não sofri"

(Jura Secreta - Zelia Duncan)

terça-feira, 19 de abril de 2011

Desconexo

Acho que é preciso recuar, alguns passos para trás enfim...
É preciso que eu me tranque mais dentro de mim, sim
É preciso que eu escute um pouco mais o que estronda aqui dentro

Porque basta você deixar a porta semicerrada e então eu entro
É preciso que eu pare de observar para que eu enxergue menos perfeito
olho no olho, comida dada na boca, abraço que aperta e enche meu peito
barba que arranha, mão firme  que assanha e beijo quente que entontece
me estende a mão, me seca o corpo, me enxuga as lágrimas e me estremece

me observa com um sorriso de canto de boca e repete linda, linda!
me acolhe no ombro, me nina, me faz voltar a me sentir menina...
É preciso muito controle pra não me jogar nesse abismo que se abre

É possivel que eu, cética, crítica, racional e infame, ache muito tarde
Talvez seja exatamente pela aura que tinha ao redor do que eu enxergava
porque eu vi um destino final, um motivo para, uma razão que justificava
Porque eu construí sozinha, perdida, sofrida, uma história ideal
E agora, sem querer, eu preciso entrar em choque com o real
É preciso que eu seja menos impulsiva e pretensiosa
É preciso que eu seja desmemoriada e falaciosa
É preciso que eu arranque o que fez raiz em mim
Para que eu possa então enxergar melhor assim
Tô perdida, tô confusa, tá um caos nos meus porões internos
Eu queria seu amasso, seu abraço, seus regimentos eternos
Eu queria ser forte, ser inteira, eu queria não querer
Eu queria fácil, volátil, encaixe no viver
E, no entanto, conto o tempo no relógio, espero em esperança
Que todo o bem querer que me alcança e me afiança
Faça morada também no seu ser.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Aula de matemática

Sabe aqueles problemas matemáticos, em que, pela análise do texto, somos obrigado a formar equações e, finalmente, descobrir os valores das incógnitas? Pois bem, cruzar as vidas das pessoas é parecido com ir formando equações matemáticas. Elas podem ser simples e de resultado dedutível. Podem ser de segundo grau, com variáveis mais complexas e cálculos mais elaborados. Podem envolver resultados de equações anteriores e, por isso mesmo, ter seu resultado diferido, postergado; posto que fica na dependência de resolvermos questões anteriores.

Engraçado é que algumas equações que formamos nesse entrelaçamento de vidas, por mais complexas, por mais irracionais que sejam os números envolvidos, por mais casas decimais e frações que existam, a gente bate o olho e percebe claramente que o resultado será um número inteiro e positivo. Não se sabe de antemão a que processos submeter para decifrar a incógnita envolvida na questão, mas a gente pressente o resultado e sabe que vai alcançá-lo.

Uma das mais difíceis lições que tive na escola foi aprender matemática. Meu negócio sempre foi as palavras, nada de números. Agradeci muito quando entrei na Faculdade de Direito por não ter mais que lidar com eles e respondia até com um certo desdém quando meus amigos calculadores me diziam que eu só saberia, a partir de então, calcular dez por cento. Hoje eu percebo claramente o quanto a matemática está intrinsecamente relacionada à minha vida e fico aqui, cruzando os dedos, para que a resolução da equação com resultado diferido seja mais fácil do que imagino e chegue logo.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

O homem sem face

Durante a noite, sorrateiramente, ele invade meu sonho. Parece estranhamente real, estranha premonição, estranho pressentimento. Os sentimentos embaralhados com a presença daquela pessoa sem face, desconhecida, incógnita, mas íntima. Assim mesmo. Ele é parte da minha vida, ele me abraça apertado e beija minha testa. Assistimos juntos a filmes na TV, ambos deitados esparramados na cama, a minha perna sobre a dele. A gente anda de mãos dadas pela rua e brinca com os pequenos num entrosamento familiar que me deixa perplexa. Os pequenos sorriem de volta pra ele e tudo me parece incompreensível porque ele não tem face. Matheus me conta que se lembra do dia em que ele chegou do céu e aterrissou na piscina, conta que ele veio num balão colorido e pousou entre os prédios, diz que assistiu a tudo da varanda e gritou dando tchauzinho, que ele perguntou por mim assim que o viu. E eu fico com cara de boba, sem entender nada. Thomás brinca de leão, de pega-pega, de nham-nham como se ele estivesse com a gente há muito. E eu o vejo circular nos meus ambientes, lidar com a nossas coisas e problemas cotidianos e continuo com o ponto de interrogação piscando na testa. Ele me puxa pela cintura e me beija a boca, sussura coisas impublicáveis no meu ouvido e eu fico vermelha, ele entra e sai da minha casa, estaciona o carro na outra vaga da garagem a que temos direito, ele frenquenta meus (nossos?) restaurantes preferidos. Quando na sua presença, meu coração inexplicavelmente acelera, e a revoada de borboletas fica indômita no meu estômago, mas nem assim eu consigo ver os olhos dele, não consigo definir seu rosto. Ele invade meus sonhos todas as noites e eu nem sei quem ele é. Entretanto, todo dia eu acordo pendindo que ele se apresente para mim na vida real. Por que não hoje?

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Dizendo sem dizer

Eu queria falar tudo, mas fica tudo entalado na garganta. Eu queria dizer de uma vez por todas, colocar contra a parede, vomitar o que revira dentro de mim na cara e esperar pelo ou-vai-ou-racha, mesmo antevendo o racha. Eu não tenho coragem de fazer essa pressão. Eu não tenho coragem de explodir. Eu não me deixo estourar porque eu sei da acidez das palavras e sei também do estrago que os respingos poderão causar ao meu redor. Eu sei do que me falta, eu sei dos meus buracos, eu sei dos leões com que luto diariamente; e isso tudo, por si só, já é coisa demais para eu lidar. Mas eu ainda tenho essa pressão aqui dentro, esse anseio sem tamanho, esse desejo que inflama. Eu aguento, eu suporto essa dor com doses pequenas e homeopáticas de reciprocidade. Não, você não sabe do que eu estou falando. Eu nunca deixei isso claro. Mas esse post aqui é só pra dizer que se eu pudesse, se eu soubesse que não racharia, eu falaria.

domingo, 30 de janeiro de 2011

O sonho

Ela estava numa longa e cansativa viagem de ônibus, dias e dias dentro do veículo, estafada de tanto chacoalhar. A estrada era péssima e parecia que ela tinha deixado muita coisa pra trás, muita coisa querida, porque durante o percurso inteiro chorara. Ela estava exausta, com olheiras, com os cabelos desgrenhados, já duvidando do mundo todo, sem saber porque demorava tanto para chegar no destino final, sem entender porque ela tinha mesmo que suportar aquilo tudo, ela estava quase querendo desistir... Mas aí, num trecho qualquer, onde nada mais existia, além da longa linha de asfalto e o mato ao redor, ela viu um rapaz sentado no chão, no acostamento.

Algo dentro dela foi tocado e, mesmo sem saber a razão, ela pediu para o motorista parar e desceu do ônibus, deixando para trás o rumo que seguia, deixando suas coisas no bagageiro. O ônibus seguiu viagem e ela desceu no meio do nada. Sentou ao lado do rapaz, que cego, perdido e desorientado, repetia em voz alta que andara por muito tempo e sentia que estava no mesmo lugar. E, mais uma vez, sem compreender direito o que se passava dentro dela, ela segurou a mão do rapaz e lhe disse que, muito embora não soubesse direito para onde ela mesma ia, queria ajudá-lo a encontrar o caminho dele.

E ela fez com que ele se levantasse de novo; e um ajudou o outro a parar de chorar; eles diminuíram a solidão do caminho; eles contaram e recontaram as histórias de vida; eles riram de piadas sem graça; eles dividiram as refeições e carinhos; eles falaram da sensação de desabamento e da falta de visão de futuro; eles falaram do que os motivava a persistir; eles falaram de tudo; e, num determinado momento, ele reconheceu o lugar para onde ia e eles tiveram de se despedir.

Depois da despedida, ela sentiu uma falta enorme de fazer companhia a ele e ponto. Não importava mais para onde estava indo, nem de onde estava vindo, ela só queria que ele estivesse junto. Ela viu como ele estava tranquilo ao encontrar o próprio rumo, era uma quase felicidade - embora não fosse. E diante do adeus, resolveu buscar alternativas. Subiu num ônibus qualquer e desceu, tentou olhar para os lados e nada, entrou em becos e ruelas, auto-estradas que saíam do nada para o lugar nenhum. Quando resolveu mudar de ares, achou que nada seria  tão bom quanto o percurso a pé que fez com ele durante dias. E, sempre que ela tentava algo novo, batia no coração a certeza de que ainda não era aquilo ali. Mas ela não voltou atrás e continuou tentando...