sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Faz de Conta

Não respondo teus e-mails e, quando respondo, sou ríspido, distante, mantenho-me alheio: FAZ DE CONTA QUE EU TE ODEIO.


Te encho de palavras carinhosas, não economizo elogios, me surpreendo de tanto afeto que consigo inventar, sou uma atriz, sou do ramo: FAZ DE CONTA QUE EU TE AMO.

Estou sempre olhando pro relógio, sempre enaltecendo os planos que eu tinha e que os outros boicotaram, sempre reclamando que os outros fazem tudo errado: FAZ DE CONTA QUE EU DOU CONTA DO RECADO.

Debocho de festas e de roupas glamurosas, não entendo como é que alguém consegue dormir tarde todas as noites, convidados permanentes para baladas na área vip do inferno: FAZ DE CONTA QUE EU NÃO QUERO.

Choro ao assistir o telejornal, lamento a dor dos outros e passo noites em claro tentando entender corrupções, descasos, tudo o que demonstra o quanto foi desperdiçado meu voto:FAZ DE CONTA QUE EU ME IMPORTO.

Digo que perdôo, ofereço cafezinho, lembro dos bons momentos, digo que os ruins ficaram no passado, que já não lembro de nada, pessoas maduras sabem que toda mágoa é peso morto: FAZ DE CONTA QUE EU NÃO SOFRO.

Cito Aristóteles e Platão, aplaudo ferros retorcidos em galerias de arte, leio poesia concreta, compro telas abstratas, fico fascinada com um arranjo techno para uma música clássica e assisto sem legenda o mais recente filme romeno: FAZ DE CONTA QUE EU ENTENDO.

Tenho todos os ingredientes para um sanduíche inesquecível, a porta da geladeira está lotada de imãs de tele-entrega, mantenho um bar razoavelmente abastecido, um pouco de sal e pimenta na despensa e o fogão tem oito anos mas parece zerinho: FAZ DE CONTA QUE EU COZINHO.

Bem-vindo à Disney, o mundo da fantasia, qual é o seu papel? Você pode ser um fantasma que atravessa paredes, ser anão ou ser gigante, um menino prodígio que decorou bem o texto, a criança ingênua que confiou na bruxa, uma sex symbol a espera do seu cowboy: FAZ DE CONTA QUE NÃO DÓI.

(Martha Medeiros)

O texto me abalou e eu tive que escrever. Porque, né? Eu me canso desse faz de conta todo, eu me canso dessas pretensões humanas corriqueiras. Eu dizia ontem que eu não tenho paciência para mi-mi-mi, para gente chiliquenta, para quem não aguenta o tranco. O mundo não é para os fracos e a gente tá aqui pra ser feliz. Ficar superdimensionando coisas microscópicas é o mal do século. Não quero ser paladino de nada, nem a voz da razão para as pessoas, mas eu divido os problemas da vida em reais e abstratos. Problemas reais exigem solução e raciocínio. Problemas abstratos, como o próprio nome diz, são abstrações.

Sempre digo que depois de passar por um grande sofrimento você se torna muito mais livre. Livre para arriscar, para viver, para ser e fazer o que quiser pelo simples motivo de que você sabe que aguenta Eu aguento tranco. Eu sou do tipo que levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima. Eu procuro não perder um segundo do meu escasso tempo sofrendo por coisa pequena. Sim, eu tenho dores que latejam aqui dentro, eu tenho problemas reais aqui fora e, ainda assim, eu só quero é ser feliz.

Eu não faço de conta que odeio nem que amo; eu não faço de conta que dou conta do recado ou que me importo; eu não faço de conta que não sofro e que não dói. Eu não odeio ninguém e a quem eu amo, eu sempre digo isso, com todas as letras: EU-TE-AMO! Eu não deixo mais nada para depois. Eu dou conta de algumas coisas e de outras eu simplesmente não consigo dar, não sei digerir e, portanto, não me atrevo. Eu não faço de conta que não sofro nem que não dói. Dói para c@R@lh0!!! Mas e aí, depois de reconhecer que dói, impõem-se duas opções: sofrer ou seguir. Eu escolho a segunda. Sempre.

Repito: não sou exemplo de nada, não é essa a intenção. Mas é que eu não tenho paciência pra faz de conta nem pra mi-mi-mi.

Um comentário:

LuTTy disse...

É o que eu sempre falo: o que não tem remédio, remediado está. Não deu certo, parte pra outra. Mi-mi-mi também não é comigo...
Bjs,
LuTTy