segunda-feira, 16 de maio de 2011

Tomara que sim

Tem dia que eu acho que não tem nada a ver, que é maior forçação de barra da história do Brasil, que é a ilusão romântica de uma história novelesca, de um final feliz, alguma redenção, alguma compensação depois de tanta dor, algo que seria bonito até de contar se tudo desse certo no final. Tem dias que eu sinto dentro de mim que tá tudo errado, que não era pra ser assim, não era para vivermos essas amputações e persistir apoiados um no outro, como se a nossa companhia servisse para reequilibrar o caos interno, para tamponar algumas feridas e para embaçar um pouco a visão. Tem dias que eu penso que nem eu mesma quero estar aqui, que me engano com o conto de fadas, com o "seria perfeito" que ouvi tantas vezes, que eu acho que é ilusão tecendo crochê dentro de mim. Tem dias que eu tenho uma quase convicção de que não vai dar certo, de que não é nada disso que a gente tá pensando e que não tem nada a ver. Em vez de leve, natural, tranquilo, feliz, é uma história amarrada com correntes pesadas e com um passado muito difícil de suportar. Tem dias que eu acho que não, melhor não.
 
Mas quando toca o telefone e escuto do outro lado a doçura da sua voz, o carinho para comigo, o cuidado com cada coisinha nossa de cada dia. Quando eu sinto o quanto faz bem, o quanto é leve, natural, tranquilo e feliz, mesmo com as correntes pesadas que arrastamos. Quando eu sinto que é a companhia mais presente dentre todas, mesmo daí. Quando eu percebo os sorrisos que surgem nos nossos rostos quando estamos juntos, a alegria que resplandece no olhar e as gargalhadas que arrancamos constantemente. Quando eu sinto que não somos uma escora, uma muleta que ajuda a suportar, mas o ceú azul depois da tempestade, o raio de sol depois do inverno mais congelante, a trégua depois de vários terremotos. Quando eu sinto o coração apertado quando dói em você e quando eu vejo você ler na minha alma o que está escondido no mais profundo de mim como se estivesse estampado na face. Quando eu sinto essa intimidade, essa cumplicidade e essa incrível e surpreendente sintonia que nos conecta. Quando a gente fala a mesma coisa ao mesmo tempo, quando eu penso em você e o telefone toca em seguida, quando se entende pelo tom de voz que o dia não foi bom. Quando eu me pego imaginando e revivendo, quando eu me vejo pensando em coisas para surpreender, quando eu me percebo em transformação não por imposição mas por sentir e aprender. Quando eu vejo o quanto é espontâneo e recíproco e doce. Quando eu me vejo pensando que é o melhor de cada dia todos os dias. Quando eu me sinto querida, ajudada, cuidada, amada. Quando eu tenho esses pressentimentos e previsões que são corriqueiramente confundidos com expectativas e desejos. Quando eu entendo que não é só uma boa história novelesca, não é só um lindo roteiro adaptado para a vida real, não é só um enredo emocionante, mas é o que é, somos eu e você, com nossos limites e problemas e entraves e medos e receios e impulsos e desejos e essa liga que amarra a gente. Quando eu penso em tudo isso, eu penso que sim, tomara que sim e que não haverá nada que me faça arredar o pé daqui.

domingo, 15 de maio de 2011

It's not a race at all

"Look at us: running around, always rushed, always late. I guess that's why they call it human race. What we crave most in this world is connection. For some people it happens at first sight. That's when you know, you know. It's fate working its magic. And that's great for them. They get to live in a pop song. Ride the express train. But that not the way it really works. For the rest of us it's a bit less romantic. It's complicated and it's messy. It's about horrible timing and fumbled opportunities and not being able to say what you need to say when you need to say it.

Look at us: running around, always rushed, always late. I guess that's why they call it human race. But some times, it slows down just enough for all the pieces to fall into place. Fate works its magic and you're connected. Every once and awhile, among all the randomness, something unexpected happens and it pushes us all forward. And the truth is, what I'm starting to think, what I'm starting to feel is that maybe the human race isn't a race at all."

From: The Switch
Música: All the beautiful things - Eels

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Quando pega de jeito

Você tá lá perdidinha da silva, já fez a curva do Cabo da Boa Esperança, já tá passando da idade, já não aguenta mais as tias, as primas, o irmão mais velho, a vizinha perguntando quando você vai arranjar um namorado e se aquietar. Você não aguenta mais as baladinhas, os carinhas, as festinhas e essa vida de encontros furtivos e alto teor alcóolico. Você não aguenta mais os domingos à noite, o cinema sozinha, a falta de jantarzinho à luz de velas, a dois. Você não aguenta mais essa dor que num se cala, esse aperto no peito que mais parece torção, essa solidão sem fim.

Você tá lá perdidinha da silva, já fez a curva do Cabo da Boa Esperança, já viveu uma história incrível, já casou de branco, já apostou suas fichas, já insistiu até não aguentar mais porque era um casamento, porque era um AMOR, porque era para ser para sempre. Você já sentiu no fundo do peito a dor de ver a relação deteriorando, definhando, amargando até não restar mais nada do que antes a fizera feliz. Você sofreu e agora não aguenta mais os domingos à noite, o cinema sozinha, a falta de jantarzinho à luz de velas, a dois. Você não aguenta mais essa dor que num se cala, esse aperto no peito que mais parece torção, essa solidão sem fim.

Você tá lá perdidinha da silva, já fez a Curva do Cabo da Boa Esperança, já teve seus filhos, já escreveu um livro, já conquistou sua independência, mata seus leões de cada dia, paga suas contas sozinha e em dia, manda no seu próprio nariz, resolve seus problemas como equações e anda pelo mundo com jeito de quem sabe bem o que quer. Você até que sofreu e até que sorriu. Você até que amou e desamou, traiu e foi traída. Você viveu e até venceu, mas no fundo, não aguenta mais os domingos à noite, o cinema sozinha, a falta de jantarzinho à luz de velas, a dois. Você não aguenta mais essa dor que num se cala, esse aperto no peito que mais parece torção, essa solidão sem fim.

Aí, né? Meio sem querer querendo você dá de cara com alguém que chega adoçando a vida e devolve as borboletas que debandaram em revoada quando a última lágrima caiu, amaciando um coração estancado e petrificado, devolvendo cor e descompasso aos dias até então modorrentos. Aparece alguém assim, do nada, cai de paraquedas na sua vida e com manual de instruções - sobre como desarmar cada uma das suas válvulas escapatórias e como ultrapassar cada uma das cem paredes de proteção - decorado. Vem dando beijos profundos na sua boca, olhando você nos olhos e lendo sua alma, falando sacanagens impublicáveis no seu ouvido e fazendo suas pernas cambalearem, suas mãos suarem e o mundo girar.

Aparece, de repente, alguém assim, que devolve a ânsia de encostar a cabeça no ombro, de dormir de conchinha, de ser carregada no colo, de andar de mãos dadas, de ser cuidada, mimada, massageada. Alguém que devolve a fé no casamento e a vontade de casar de branco. Alguém que faz você suspirar nas tardes de chuva, que faz seu corpo amolecer com as inúmeras possibilidades de. Alguém que faz você sonhar com uma família grande, com casa cheia, com fotos na sala com uma penca de sorrisos, com cachorros e decoração da casa de veraneio, com churrasco com família reunidas.

E aí, você vai desejar que esse alguém tenha certeza do sentimento que une vocês dois e do quanto é raro e especial e único e excepcional esse encontro. Vai desejar que ele entenda cada uma das suas nóias, e bobeiras, e ciúme toscos, todos bobos e que decorrem apenas do amar demais. Que ele saiba acalmar seu pranto quando ele explodir, arrancar sorrisos quando as coisas estiverem confusas, que adore suas DRs porque você expõe o que sente, que entenda seus sentimentos ainda que não concorde com eles e que faça simplesmente de tudo para que as coisas funcionem entre vocês.

Você vai querer que ele abandone tudo quando só o abraço dele for solução. Você vai querer poder ser menina, bebê, moleca, louca, esquizofrênica, autoritária e que ele te olhe como quem entende cada um dos seus achaques. Você vai querer ter certeza ao olhar nos olhos dele de que é amor até o último fio de cabelo. Você vai querer que ele esqueça, vezenquando, os amigos, o futebol de domingo, a cervejada com a galera só pra matar o tempo ao seu lado.Você vai querer que ele lembre de você quando ouvir uma música, quando se deparar com sua sorveteria favorita, quando passar na frente do prédio em que você trabalhou e até sem motivo algum, só porque teve saudade. Você vai querer que ele fale e demonstre e grite aos quatro cantos o quanto esse amor inundou a vida dele.

Você vai se ver querendo que ele morra de tesão por você, que ache gostoso seus pneuzinhos, que goste da sua bunda meio caída e até das celulites nas suas coxas. Você vai querer que ele te ache única, linda, perfeita. Você vai querer fazer amor e sexo selvagem ao mesmo tempo agora e vai enlouquecer numa cama só de vocês.  Você vai imaginar a adição do sobrenome dele e vai achar lindo. Você vai imaginar vocês velhinhos e vai achar lindo. Você vai imaginar as brigas cotidianas e vai achar lindo. Você vai saber que ele tem pêlos no nariz, uma coceira no pé, o calcanhar descascado, um buchinho de chopp, um dente meio torto e tudo isso vai incrivelmente fazer parte daquilo que te faz louca por ele.

Você vai achar pela primeira vez e de novo que é o homem da sua vida e que é com ele a família que você sonhou. E aí você vai passar a torcer que o beijo não perca o sabor com a rotina, que as conversas não diminuam com o saber-se próximo, que o interesse não se perca ao se deparar com o rebolar de outras ancas. Vai torcer para que a paixão vire amor e para que o amor mantenha a chama da paixão. Vai torcer para ser só dele e que seja para sempre. Vai dormir e acordar com isso martelando na cabeça e vai entender, assim profunda, inequivoca, e declaradamente, que é nesse momento que a vida vale muito a pena.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Eu também

"Eu prezo o amor que é gasto com prazer, que é escasso, raro e inquieto. Tenho preguiça do que é a prazo, do lento, do morno abrandado com soprinhos. Faço passeatas é pelo amor singular, especial, que tem pressa, fome e sede de ser. Não pra ser breve mas porque não se contém. Aquele que derruba os limites das quatro paredes e grita aos sete cantos a quê veio, que não pára na primeira topada pra ajuste de falsos moralismos ou pra consenso de olhares de reprovação. Sou fã de amores de verão que duram todas as estações, de encontros não permitidos e conquistas diárias sagradas por suas singularidades. De gestos que entregam a intensidade, o nome, endereço e RG do sentimento sem medo de denunciá-lo abertamente. Bato palmas é pros amores de fim de dia estressante, comida pronta pra dois, duas taças ou uma adega inteira de vinho tinto pra eternizar datas inventadas pra somar. " (Yohana SanFer)

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Quando menos se merece

Procure me amar quando eu menos merecer,
porque é quando eu mais preciso
 
Falamos e ouvimos à beça sobre o amor desde pequenininhos, já sabedores ou não do que se trata ou minimamente da vizinhança disso. E, apesar das nossas singularidades, costumamos ter pelo menos um desejo comum: queremos amar e ser amados. Amados, de preferência, com o requinte terno da incondicionalidade. Na celebração das nossas conquistas e na constatação dos insucessos. No apogeu do nosso vigor e no tempo do nosso encolhimento. Na vez da nossa alegria e no alvorecer da nossa dor. Na prática das nossas virtudes e no embaraço das nossas falhas. Mas não é preciso viver muito para percebermos que não é assim que o amor, na prática, costuma acontecer.

Temos facilidade para amar o outro nos seus tempos de harmonia. Quando realiza. Quando progride. Quando sua vida está organizada e seu coração está contente. Quando não há inabilidade alguma na nossa relação. Quando ele não nos desconcerta. Quando não denuncia a nossa própria limitação. A nossa própria confusão. A nossa própria dor. Fácil amar o outro aparentemente pronto. Aparentemente inteiro. Aparentemente estável. Que quando sofre, para não incomodar, por costume ou vaidade, não faz ruído algum.

Fácil amar aqueles que parecem ter criado, ao longo da vida, um tipo de máscara que lhes permite ter a mesma cara quando o time ganha e quando o cachorro morre. Fácil amar quem não demonstra experimentar aqueles sentimentos que parecem politicamente incorretos nos outros e absolutamente justificáveis em nós. Fácil amar quando somos ouvidos mais do que nos permitimos ouvir. Fácil amar aqueles que vivem noites terríveis, mas na manhã seguinte se apresentam sem olheiras, a maquiagem perfeita, a barba atualizada.

É fácil amar o outro na mesa de bar, quando o papo é leve, o riso é farto, e o chope é gelado. Nos cafés, após o cinema, quando se pode filosofar sobre o enredo e as personagens com fluência, um bom cappucino e pão de queijo quentinho. Nos corredores dos shoppings, quando se divide os novos sonhos de consumo, imediato ou futuro. É fácil amar o outro nas férias de verão, no churrasco de domingo, nos encontros erotizados, nas festas agendadas no calendário do de vez em quando.

Difícil é amar quando o outro desaba. Quando não acredita em mais nada. E entende tudo errado. E paralisa. E se vitimiza. E perde o charme. O prazo. A identidade. A coerência. O rebolado. Difícil amar quando o outro fica cada vez mais diferente do que habitualmente ele se mostra ou mais parecido com alguém que não aceitamos que ele esteja. Difícil é permanecer ao seu lado quando parece que todos já foram embora. Quando as cortinas se abrem e ele não vê mais ninguém na plateia. Quando até a própria alma parece haver se retirado.

Difícil é amar quando já não encontramos motivos que justifiquem o nosso amor, acostumados que estamos a achar que o amor precisa estar sempre acompanhado de explicação plausível, estatísticas promissoras, balancetes satisfatórios. Difícil amar quando momentaneamente parece existir somente apesar de. Quando a dor do outro é tão intensa que a gente não sabe o que fazer para ajudar. Quando a sombra se revela e a noite se apresenta muito longa. Quando o frio é tão medonho que nem os prazeres mais legítimos oferecem algum calor. Quando ele parece ter desistido principalmente dele próprio.

Difícil é amar quando o outro nos inquieta. Quando os seus medos denunciam os nossos e põem em risco o propósito que muitas vezes alimentamos de não demonstrar fragilidade, vulnerabilidade, invencibilidade, lógica. Quando a exibição das suas dores expõe, de alguma forma, também as nossas, as conhecidas e as anônimas, as antiquíssimas e as recém-nascidas. Quando o seu pedido de ajuda, verbalizado ou não, exige que a gente saia do nosso egoísmo, do nosso sossego, da nossa rigidez, do nosso faz-de-conta, para caminhar humanamente ao seu encontro. E, ao encontrá-lo, talvez lhe dizer a verdade: "eu sei o quanto você está doendo porque eu já doí também" ou "eu sei o quanto você está doendo porque estou doendo também, agora" e/ou "porque vivo, eu estou à mercê de doer de novo."

Difícil é amar quando o outro repete o filme incontáveis vezes e a gente não aguenta mais a trilha sonora. Quando caminha pela vida como uma estrela doída que ignora o próprio brilho. Quando se tranca na própria tristeza com o aparente conforto de quem passa um feriadão à beira-mar. Quando sua autoestima chega a um nível tão lastimável que, com sutileza ou não, afasta as pessoas que acreditam nele. Quando parece que nós também estamos incluídos nesse grupo.

Difícil é amar quem não está se amando. Mas esse talvez seja, sim, o tempo em que o outro mais precisa se sentir amado. Eu não acredito na existência de botões, alavancas, recursos afins, que façam as dores mais abissais desaparecerem, nos tempos mais devastadores, por pura mágica. Mas eu acredito na fé, na vontade essencial de transformação, no gesto aliado à vontade, e, especialmente, no amor que recebemos, nas temporadas difíceis, de quem não desiste da gente. Acredito porque nos momentos mais doídos da minha jornada até aqui eu nunca encontrei nenhum botão mágico, mas tive fé, tive gesto, e, felizmente, tive quem me amasse sem desistir de mim.
 
(Ana Jácomo)

terça-feira, 10 de maio de 2011

Doendo

Se existisse um botão on/off, certeza de que eu apertaria off hoje. Se existisse um mecanismo para transferir para uma pasta esquecida do HD, certeza de que era lá que estaria. Se existisse uma maneira de tirar de dentro de mim um pouquinho, só para que eu enxergasse tudo sem estes olhos de esperança, sem esse querer que cega, certeza de que eu toparia na mesma hora. Se eu pudesse expulsar de mim, ainda que para ser invadida de novo depois, eu faria. Mas não posso, não dá. Eu não sei tirar de mim aquilo que fez raiz profunda. Eu não consigo olhar com imparcialidade essa realidade que me tomba, que me devora, que me entontece. Tá aqui de um jeito inegável e da mesma forma que me alegra, que me dá muitos motivos para sorrir, que me faz feliz e me devolve uma sensação de pertencimento e paz, às vezes, me machuca demais. Eu nem queria ser vulnerável, frágil, nem me sentir exposta assim. Eu não queria mesmo, mas me pego sofrendo sem querer e de uma maneira tão contundente que me assusta. Olho pra mim aqui, com essa poça de lágrimas no travesseiro e me pergunto quando foi que as coisas tomaram esse rumo e não consigo encontrar nenhuma resposta convincente. Eu achei que conseguiria equilibrar esse pratos, eu achei que conseguiria me colocar numa posição de pé atrás e de prudência, eu achei que eu saberia ser a pessoa equilibrada, ponderada, aritmética e, no entanto, me pego em plena queda livre no precipício, sem paraquedas, sem redes de segurança, sem colchão do corpo de bombeiros. Eu me pego tão envolvida nesse sentimento que eu não sei o que fazer comigo mesma sem você por perto e acabo me deixando largada aqui, nesse quarto, com as cortinas fechadas para esperar só o tempo passar até você voltar. Eu não sei explicar direito a dor dilacerante que essa ausência provocada por mim me causa, eu sei que é uma sensação desesperadora, é aquela coisa que não cabe e não assenta, que impede o ar de entrar tranquilamente nos pulmões, que impede a fala de sair sem soluços, que impede o olhar de alcançar o que existe de mais belo no mundo, que impede o coração de se alegrar com a vida que vibra ao redor. Eu não sei dizer como eu deixei as coisas chegarem a este ponto, mas eu sei do que eu sinto e tem doído demais.
 

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Dentro de mim

Preciso de segurança, de amor, de compreensão, de atenção, de alguém que sente comigo e fale: Calma, eu estou com você. (Caio F.)

Mas é no silêncio que eu encontro a paz e a tranquilidade para entender que é dentro de mim que moram todas as respostas. Dentro de mim, estão guardados meus quereres, minhas vontades, meus sonhos e projetos, minhas expectativas e meus desejos mais íntimos e secretos. Dentro de mim, mora alguém que sabe o que quer, que se entende e se reconhece. Dentro de mim, existe alguém que sabe lidar com a vida, com as alegrias e com as dores sozinha. Há por aqui, perdida em algum lugar, alguém que sabe caminhar sem esse apoio, sem essa dependência, sem essa carência. Dentro de mim, existe uma força que eu nem sabia que existia. Força que faz os olhos brilharem e devolve ânimo e vigor quando a luta parece excruciante. Dentro de mim, há alguém que vai até o depois do final do além em pé e a pé. Dentro de mim, há alguém que racionaliza as emoções, emocionaliza os argumentos e decide com parâmetros lógicos e impulsos. Dentro de mim, há uma contradição que se debate e, vezenquando, até me abate, mas que no fim das contas sabe bem onde é que quero estar. Dentro de mim, há uma pessoa firme que sabe pra onde vai e com quem pode contar. Dentro de mim, há certezas e dúvidas que se amontoam como poeira nos cantinhos das paredes e, muitas vezes, me deixam perdida e confusa sem saber o que é uma e o que é outra. Ainda assim, dentro de mim, há claramente definido o que eu suporto e o que não, o que eu topo e o que não. E, mais importante do que tudo isso, dentro de mim, mora uma pessoa que aprendeu com a vida e a duras penas a mudar a rota que havia sido traçada e a recomeçar do zero, mesmo que doa, mesmo que sofra, mesmo que falte o ar.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Gabito Nunes, meu rei!

"Mas a vida é lotada de meninas com esse quê de "sei-lá-o-que-ela-tem-mas-tem-algo-como-ninguém". (...) Vai ver ela tem o dom. É doce, melodiosa, dedicada ao mesmo tempo que histérica, safada, louca. Provoca um coquetel de tesão na mesma medida de pavor, resultando num afã desgovernado de levar pra casa, dar banho e uns carinhos. Quando temos os olhos hipotecados pelo jeitinho dela, todas as outras parecem via de regra. (...) Pode ser a voz, o piscar, o andar, a forma como estrala as costas, a combinação das roupas, o sorriso rasgado que ilumina o ambiente, a careta que faz quando corta o dedo. Alguém que reluz, camufla os demais, é posto em relevo, que incha suas pupilas. São essas incríveis e inexplicáveis arestas da paixão que excepciona um só no meio de tantos outros. Pessoas que, ao se aproximarem, nos deixam assim, sem jeito."

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Laissez passer...

Eu sei que não faz sentido, eu sei que precipitado, eu sei que pareço louca, bipolar, frágil e carente demais, eu sei que não é para ser assim, eu sei que nem tenho esse direito, eu sei que é um passo grande demais, eu sei que é arriscado e louco, eu sei que pareço um tanto quanto perturbada e insegura, eu sei que a minha convicção não convence, eu sei que não parece que estou certa, eu sei que eu cambaleio até nos argumentos, eu sei que as minhas palavras não são tão firmes, eu sei que deveria ser menos impulsiva, eu sei que não deveria sentir dessa forma, eu sei que deveria tomar mais cuidado com o que digo, eu sei que não deveria ser cobrança, ser pesado, ser uma demanda, ser o que é. Eu sei. É que quando dói, a vista embaça e os sentidos se perdem. Eu sempre prefiro calar a falar, eu sempre prefiro esperar passar. E passa. Sempre passa. Taí uma coisa que eu aprendi: qualquer coisa passa. Não no sentido de se perder para sempre num breu da memória, mas simplesmente sai de foco e dá espaço para urgências, para outras coisas que são prementes. E, uma vez passado o que parecia insuportável, a gente consegue seguir tranquilo, quase perfeitamente. Deixa passar. Laissez tomber, laissez passer.

terça-feira, 3 de maio de 2011

O mais extremo ódio com o mais extremo amor

Carpinejar dando uma aula sobre a verdadeira face por trás da vingança. Deleite...
 
 
 
A vingança encharca a literatura e a música, mas seus mistérios jamais serão esgotados.

Vingança é uma arte, o refinamento da carência. Quem procura se vingar do ex ou da ex, na verdade, não cansou de brigar. Não terminou de argumentar. Vingança é discutir o relacionamento sozinho, é discutir o relacionamento à distância, é dedicar o dia inteiro, às vezes a vida inteira, a arquitetar uma forma de chamar a atenção do amante que negou o ouvido.

O luto é destinado aos que amam amar. Vinga-se a pessoa que odeia amar, odeia continuar amando. É o encontro do mais extremo ódio com o mais extremo amor. A união de dois terrorismos.

Vinga-se aquele que acredita que deu mais do que recebeu e que se enxerga ludibriado. Aquele que, durante a relação, cobrava em segredo tudo o que oferecia, listava presentes e gestos. A vingança é o juízo final do avarento amoroso.

Indica também prepotência. O vingador se enxerga superior ao vingado, mais experiente e sábio. Acha que está ensinando seu antigo par. Encarna a figura de professor repreendendo o erro do aluno. Assim como não sofre em vão, somente se humilha para humilhar o outro. Todo sofrimento é arrogante, debitado na conta do desafeto.

O vingador cobiça a última palavra pois não aceita que alguém pense o pior dele. Planeja castigar as supostas distorções e intimidar as possíveis confissões de sua intimidade. O vingador vive por hipóteses. Não entendeu que a última palavra não existe, é uma desculpa para mandar.

A vingança é o mais paradoxal dos atos: um sentimento inteligente em mãos burras e desgovernadas; uma pressa que exige longa paciência e dissimulação. Requer as mais contraditórias atitudes: sangue frio de alguém com sangue quente; calar-se apesar da exagerada vontade de falar.

A vingança fracassa pela ânsia de fama do seu autor. Quem busca se vingar pretende que o outro saiba que foi ele, que não tenha nenhuma dúvida. Deseja dar o troco beijando a boca, olhando nos olhos. Conclui que não adianta nada uma vingança sem remetente. E peca pela ambição, erra ao se expor, porque a represália aguda e exitosa esconde o criminoso para a perfeição do crime; deve ser anônima, gerando a desconfiança, mas não entregando totalmente o seu mentor.

Não conheço vingança perfeita. Não se vingar talvez seja a melhor vingança. Fazer esperar uma resposta que nunca virá.

(Fabrício Carpinejar)