segunda-feira, 2 de maio de 2011

Confissão

Passei pelos dias com olhos ávidos em busca de coisas que queria dividir com você. Segui pelas ruas como se cada detalhe fosse uma notícia super importante para contar. Eu vi um carro capotado enquanto seguia para o aeroporto. Uma gorda muito gorda entalou na cadeira da praça de alimentação do shopping. A melhor amiga tá vivendo desventuras amorosas e a gente conversou sobre isso até muito tarde e dividiu esses sentimentos confusos-desconexos. Eu fui dormir com o telefone como companheiro na cama, ao meu lado, para o caso de. Nunca se sabe, né? Esperei ele tocar aquele alarme que mostraria seu nome no visor. Sonhei com a gente junto. Eu provei o vestido e me olhei no espelho querendo me enxergar pelos seus olhos. Será que diria "linda, linda!"? Eu senti aquilo tudo quando encontrei com quem me machucou e queria ter ligado para você chorando, aos soluços, para dizer o quanto doeu/dói em mim e pedir seu ombro com camisa reserva. Eu lembrei de tanta coisa dolorosa. Eu me entreguei aos meus impulsos consumistas e salve-se quem puder e que a Nossa Senhora dos Cartões de Crédito Estourados nos proteja. Eu quis ter você por perto e senti você tão longe. E quado você se afasta de mim, assim meio sem querer querendo, ausente presente, um pouco frio e ainda assim delicado, é que eu descubro o quanto você está intrincado em mim, na minha rotina, no meu dia, na minha vida. É justamente quando você se afasta que eu mais queria ter você presente. E eu sei que há esses momentos seus: reflexivos, reclusos, instrospectivos; e que eu simplesmente não consigo penetrar. Nessas horas, eu me calo, eu me preservo, eu me reservo, eu me ausento para respeitar. E, ainda assim, ainda que longe, ainda que calada, ainda que quietinha, ainda que ausente, tudo que eu mais queria era abraçar apertado e encostar minha cabeça no seu ombro para que o silêncio das coisas que não precisam ser ditas  fizesse seu trabalho e permitisse que meu coração batesse colado e no ritmo do seu.

domingo, 1 de maio de 2011

What about the news?

"We don't get to pick who we fall in love with, and it doesn't happen like it should." (No strings attached)

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Amor bom

Amor bom, amor que pinta de azul o céu cinza dos problemas mais cascudos; amor que abraça porto seguro quando as lágrimas caem; amor daqueles que trazem flores para alma e eletricidade para o corpo; amor de fazer suspirar e marejar os olhos; amor que preenche a vida e envolve todos os sentidos; amor assim entrega-devoção-paixão; amor bom é amor difícil. É preciso que haja algumas dificuldades, um quiprocó, uma inquietação, uma aura de dúvida para que depois tudo dê certo no final e a paz que só o amor é capaz impere e a sensação de merecimento surja. Amor bom tem que ser lutado, conquistado, suado. Se vem simples, sem problemas, sem obstáculos, a gente desconfia, acreditando piamente no ditado popular que diz que "tudo que vem fácil, vai fácil". Amor bom tem que demorar para ter lugar, tem que ser decorrente de uma luta inglória que redima todos os pecados e exima as culpas vãs. Amor bom tem que ter lágrimas tolas, reconciliações instantâneas, pequenos desentendimentos que pareçam bombas atômicas na relação e que, no fundo, sejam apenas entreveros travados por dois corações que se querem demais. Amor bom é amor complicado, cujas discussões beirem a irracionalidade e cujas pazes aqueçam o coração, a alma, a vida e façam do inverno mais frio de todos os tempos o verão cearense. Amor bom é amor que dói para só então abrandar, que machuca para curar, que vem tsunami e depois se torna piscininha natural. Amor bom não pode chegar morno, mais ou menos, casual; tem que vir avalanche, inundação, curto-circuito dos sentidos, desacordo dos nervos. Tem que chegar amolecendo o corpo e cambaleando as pernas. Amor bom é aquele que derruba com um soprinho ao pé do ouvido as grades, os muros, as fortalezas de proteção que construímos em torno de nós mesmos. Amor bom é como quando se encontra a solução para um problema complicado de física quântica e então, todas aquelas incógnitas e operações matemáticas passam a fazer todo sentido e ele é simples, é muito claro, é muito óbvio: a gente está aqui é para isso mesmo, para amar.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Só uma palavra me devora: aquela que meu coração não diz.*

A ideia não é entender, mas sentir. Não é dar nome, classificar, enfileirar no rol disso ou daquilo outro, mas viver. A ideia não é obrigação, é prazer. A ideia não é cobrança, é querer. A ideia é beijo, ombro, abraço, mão... A ideia é se permitir. Até quando? Em que circunstâncias? Em que termos? Eu não sei nem quero saber.

Se eu fosse corajosa, bem resolvida, confiante, eu diria tudo que calo, tudo que entala na minha garganta por conta de um medo absurdo da rejeição. Se eu confiasse bem em mim, se minha auto estima ao menos existisse, eu contaria como eu me sinto, da sensação de derretimento, das minhas vontades impulsivas, dos meus desejos mais secretos. Se eu fosse outra mulher, em outras circunstâncias, talvez nem tivessem razão de ser essa insegurança que me assola e essas negações que me deprimem e essas vendas que me imponho pra controlar minhas explosões.

Eu sou só o que eu posso ser e você também. Humana demais para não sentir. Controlada demais para me jogar no abismo infinito. Carente demais para não querer. Envolvida demais para perceber. Fiquei tão soterrada nessa avalanche de sentimentos, nessa inundação, que demorei a recobrar o ar dos meus próprios pulmões e, ainda assim, eu não quero soltar sua mão. As incertezas que envolvem esse laço, as opiniões nem sempre estimulantes, os pequenos machucados cotidianos causados pelo não saber tão a fundo são muito pequenos perto da certeza que me impulsiona.

Não ter, não viver, não ver, não ouvir, não sentir certamente seria insuportável demais. Certeza de que tudo aquilo que se vê e se percebe é parte mínima do que efetivamente sinto. Certeza também de que poderia ser muito mais. Certeza também de que muitas águas ainda vão passar por baixo da ponte antes de se chegar na bifurcação do caminho em que será preciso decidir se tudo ou nada. Enquanto isso, segura minha mão.

*"Só uma coisa me entristece
O beijo de amor que não roubei
A jura secreta que não fiz
A briga de amor que não causei
Nada do que posso me alucina
Tanto quanto o que não fiz
Nada do que quero me suprime
De que por não saber ainda não quis
Só uma palavra me devora
Aquela que meu coração não diz
Só o que me cega, o que me faz
infeliz
É o brilho do olhar que não sofri"

(Jura Secreta - Zelia Duncan)

terça-feira, 26 de abril de 2011

Bem poderia ter sido escrito por mim

"Vem cá, deixe esse sol de lado, do lado de fora, longe de nós. Fecha essa cortina, esquece esse mar, me bastam as ondas de calor aqui dentro provocadas pelo teu olhar convidativo. Deixa esse papo de praia, a gente fica aqui, vamos brincar de infinito, vai ser só você e eu. A gente fica, pra gastar as horas do dia, debochar dessa tarde luminosa, embalados pelo "dolce far niente". Tem um despertador atrasado, uma agenda de folhas arrancadas, tem beijos intermináveis e dois corações com saudade de amar aqui dentro. Pra quê sair daqui? Esquece lá fora. O que tem se já passou do meio dia, se está tudo fora de lugar, se a gente esqueceu o pote do - agora ex sorvete - ao pé da cama, se só tem pizza gelada pro almoço, e se o almoço já virou jantar? Eu quero mais é que o tempo se arraste, que o sol se renda ao seu espetáculo mais bonito e o céu se encha de cores místicas entrando pelas frestas da janela, enfeitando nosso cenário, anunciando a chegada de uma noite certamente curta pra nós dois, que é quando percebo que eu preciso de mais de vinte e quatro horas diárias pra gastar contigo, eu preciso de mais ar pra respirar o bem que a tua companhia me faz. Mais suas mãos pelas minhas costas como promessas anti-estresse e mais memória pra eternizar suas expressões de décimas quintas intenções a cada movimento que faço brincando de dançar sem música, a cada pedido seu de que eu fale sobre meus planos para a madrugada anunciada por nossas mãos que não se descruzam um segundo sequer. Te digo, seriam dispensáveis palavras. No meio de um dia tão claro, o mundo parece parado quando você repousa os olhos nos meus, parecendo querer decorar os tons da minha íris, pondo o meu cabelo atrás da orelha, negando dizer o que pensa quando fica assim, só me olhando com o sorriso mais malemolente dessa estação de 40 graus escaldantes. E entre tantos e tantos beijos e olhares duradouros,  jurava que assim tão de perto, fosse certo, que estivesse entregue todas as minhas idéias pra nós dois. Sair pra quê, tá quente lá fora e melhor, bem melhor aqui dentro. Mas se eu preciso te falar, faço assim, musicada. Estico meus braços, alcanço teu som, aumento o volume e canto pra você o refrão de: "deixa o verão." Dispensáveis palavras. Minha boca calada, colada na sua, responde por mim: boicote ao verão. Então, deixa, deixa o verão, deixa o verão pra mais tarde."  (Yohana Sanfer)

segunda-feira, 25 de abril de 2011

"Mensagem de algo que ainda não sei"

"Então invadirias subitossuave a minha porta e me falarias de coisas tão caras a mim, feitas de frágeis, falsos encantamentos, como aquele botão de rosa branca que te dei faz algum tempo, e depois se abriu espantosamente, feito uma estrela, (...) nem eu nem tu saberíamos dizer de quem partiu o início do gesto, a mão de um tocaria redondaleve a pele do rosto do outro para que começasse a acontecer tudo aquilo de beijos e suores e salivas e gritos de prazer, misturados num sonho não sei se meu o teu/meu corpo que já não sabia até onde era meu ou teu, sentindo sempre, desde antes do início do gesto, de toque, que não haveria depois, e na manhã seguinte tonta, (...) atravessaria o dia meio cega para descobrir vagamente que, além de mentiras, terias deixado em mim a semente de uma história complicada (...) até enfim te concluir primário, tosco, terrês, nunca capaz de compreender que além desta nítida dor cravada que por muitas vezes beirou a morte, porque te queria como se quer, vadia, humanamente, deixavas também um encontro que não aconteceu, que talvez nada esclareça, porque tudo é de vidro, porque brotou da confusão apaixonada que despertasse em mim, que te julguei esclarecendo a vida, peça final de um quebra-cabeça, peça inicial de outro, de um excesso de líquidos e desejos para sempre incompletos, mas que ficará, ainda que ninguém a entenda, esses ramos, esses castelos, como não ficaste, porque eras só mensagem de algo que ainda não sei." (Caio F.)
 
PS: Só para constar: Caio Fernando Abreu, eu te amo!
 

domingo, 24 de abril de 2011

Desculpa

Eu quero pedir desculpas por ficar tão centrada na minha dor, tão focada no meu próprio umbigo, tão desconcertada e surpresa com o que me revirava por dentro, que esqueci de olhar para você com estes olhos de compaixão e solidariedade. Eu queria pedir desculpas pelo meu egoísmo, pela minha desatenção, pela minha miopia absurda, pela minha falta de sensibilidade em escutar o que doía em você também. Eu queria pedir desculpas por ser assim, intensa, impulsiva, destrambelhada e carente, tão perdida dentro de mim que passo por cima dos outros como um trator, como se a cruz que eu carrego, como se as correntes que arrasto fossem muito mais pesadas que as dos outros. Desculpa! A minha visão ficou turva, o meu coração se comprimiu, faltou o ar de novo e eu me perdi de mim, eu me afastei de você, eu não fiz o que deveria fazer, eu errei. Eu queria apenas que você soubesse que estou aqui sempre, que você também pode contar comigo, que eu também sou toda ouvidos para o seu desabafo, eu também sou um ombro amigo. Eu queria que você soubesse que nunca poderei agradecer todo o apoio, todo o carinho, mas eu sei que posso retribuir. E é por isso mesmo que peço desculpas agora, por ter sido descuidada. Desculpa...

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Se joga!

Quando a gente lembra no meio dia dia e um sorriso vem nos lábios. Quando a gente sente uma saudade gostosa, um desejo de voltar o tempo se não estiver mais perto ou de apertar o pause quando na presença. Quando a gente quer segurar a mão, deitar a cabeça no ombro, olhar nos olhos e deixar o tempo passar sem pressa. Quando a gente quer a companhia, quer o carinho, quer o beijo, quer a mão. Quando a gente quer só mais um pouquinho e sempre fica com um gostinho de quero mais. Quando nunca é suficiente, quando todo tempo do mundo parece curto, quando a vida fica mais bonita se se está junto. Quando se sente mais à vontade, quando se sente protegido e cuidado, quando não se entende direito, mas se sente profundamente. Quando não se sabe explicar, não se sabe como controlar, não se sabe como evitar, não se sabe como mensurar; mas sabe que está lá, palpitando dentro de si. Quando não há mais nada a fazer para evitar, para lutar, para se proteger, o jeito é se entregar, mergulhar de cabeça no redemoinho e desfrutar. Sem garantias, sem cauções, sem cuidado. Só entrega, só coração, só instinto. Vai, se joga!

terça-feira, 19 de abril de 2011

Desconexo

Acho que é preciso recuar, alguns passos para trás enfim...
É preciso que eu me tranque mais dentro de mim, sim
É preciso que eu escute um pouco mais o que estronda aqui dentro

Porque basta você deixar a porta semicerrada e então eu entro
É preciso que eu pare de observar para que eu enxergue menos perfeito
olho no olho, comida dada na boca, abraço que aperta e enche meu peito
barba que arranha, mão firme  que assanha e beijo quente que entontece
me estende a mão, me seca o corpo, me enxuga as lágrimas e me estremece

me observa com um sorriso de canto de boca e repete linda, linda!
me acolhe no ombro, me nina, me faz voltar a me sentir menina...
É preciso muito controle pra não me jogar nesse abismo que se abre

É possivel que eu, cética, crítica, racional e infame, ache muito tarde
Talvez seja exatamente pela aura que tinha ao redor do que eu enxergava
porque eu vi um destino final, um motivo para, uma razão que justificava
Porque eu construí sozinha, perdida, sofrida, uma história ideal
E agora, sem querer, eu preciso entrar em choque com o real
É preciso que eu seja menos impulsiva e pretensiosa
É preciso que eu seja desmemoriada e falaciosa
É preciso que eu arranque o que fez raiz em mim
Para que eu possa então enxergar melhor assim
Tô perdida, tô confusa, tá um caos nos meus porões internos
Eu queria seu amasso, seu abraço, seus regimentos eternos
Eu queria ser forte, ser inteira, eu queria não querer
Eu queria fácil, volátil, encaixe no viver
E, no entanto, conto o tempo no relógio, espero em esperança
Que todo o bem querer que me alcança e me afiança
Faça morada também no seu ser.