quarta-feira, 25 de maio de 2011

Porque só o carinho resolve

 

Quando o coração desperta

Poderia, é claro, não ser nada disso se alguém não tivesse mostrado você pra mim, se a gente não tivesse conversado como amigos que se conhecem há muito, se a gente não tivesse se identificado instantanea e rapidamente desde o primeiro momento. Poderia não ter importância, não ter significado, não ser quase nada se a gente tivesse encerrado todo assunto no segundo ou terceiro email trocado. Poderia ter passado batido, ter caído no mais absoluto esquecimento, poderia ser só mais uma daquelas histórias de que a gente ouve falar se não tivesse trazido essa sensação de pertencimento e perenidade na vida. Poderia não ser nada demais se não fosse você e se não fosse eu. Se não fosse esse olhar de gente do bem, de coração bom, de gente que abraça com a alma. Se não fosse esse sorriso que ilumina os ambientes e aquece o coração. Se não fosse o seu nome ocupando espaços escondidos da minha mente, se espalhando pelos cantos do meu pensamento e adoçando minha boca. Poderia ser qualquer coisa, se não fosse seu jeito manso de falar, seu jeito profundo de olhar, seu talento para me desvendar. Poderia mesmo não ser nada disso, se em algum momento, qualquer deles, você não tivesse sido exatamente quem você é. Poderia fazer qualquer coisa, poderia ser o mundo todo, mas foi você, fomos nós dois e foi desse jeito. E então, foram inúteis e vãs todas as tentativas de esconder o que é, de aplacar o que transbordava, de conter o deslumbre. E então, todas tolas as vezes em que se quis disfarçar, omitir, sublimar. Muito boba a tentativa consciente e orientada de não ser amarrado por esse sentimento. E então, a gente entende, entendemos todos, que de nada vale a razão quando é o coração que desperta.

 

(Thais Racnela)

 

terça-feira, 24 de maio de 2011

Sobre os caminhos

Caminhar de mão dada em terreno irregular é coisa de difícil execução. Permanecer com as mãos entrelaçadas enquanto se passeia por sobre barrancos e pedras e buracos e deslizamentos no caminho é tarefa que exige um esforço hercúleo. É claro que ajuda demais ter uma mão ali, segurando firme a sua, quando você quase escorrega, quando se desequilibra, quando o pé derrapa na lama. Todavia, continuar segurando a mão do outro exige uma força que a gente nem sabe se tem.

Em determinados pontos do caminho, a gente se sente cansado e pesado e triste. Sente que está segurando a mão, as lágrimas, a dor, as pontas. Sente que está sendo privado de um caminho mais fácil, mais colorido, mais plano. Sente um certo desapontamento por ter escolhido esse caminho. Em tantos outros momentos, é possível elucubrar que as dificuldades porque se passa é para garantir robustez, resistência, sustância. É só um jeito meio torto de fazer com que não reste mais dúvida alguma sobre nada quando a parte plana do caminho chegar.

A gente sabe, porque é bem evidente, que a estrada é sinuosa, é tortuosa, que o acesso é precário, que não há faixas pavimentadas, que é um desbravamento contínuo. Cada passo dado é uma conquista. Cada pedaço de chão pisado é um deslumbre. Cada quilômetro percorrido é uma vitória. O problema - e talvez nem seja um problema mesmo - é ter bem claro, dentro de si, de um jeito pressentido, de um jeito inexplicável e surpreendente, que é esse mesmo o caminho que se quer. Ainda que seja assim difícil e cansativo e sofrido algumas vezes.

Já se disse uma vez que "para quem não sabe onde vai, qualquer caminho serve". E se a gente sabe, se bate bem dentro de si uma certeza que pulsa e empurra adiante, que traz mais uma fornada de coragem sempre que a razão ou o coração titubeia, se se tem uma certeza que ilumina a escuridão do caminho inteiro; então a gente também sabe que, pouco importam os buracos, os barrancos, os abismos ao lado do caminho, pouco importam os deslizamentos e os desequilíbrios e as derrapagens no percurso. Porque quando a gente sabe para onde está indo o caminho é só um detalhe.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Um dia feliz

Não é preciso nada extraordinário para que um dia feliz aconteça. Não é preciso muito, não é preciso tudo, não é preciso de nada material. Um dia feliz é feito de pequenas sutilezas, de pequenos momentos, de coisinhas delicadas que preenchem todas as horas e aquecem o coração de maneira indubitável. Um dia feliz é feito com ligações e palavras carinhosas de madrugada, com preguiça acompanhada na cama, com cheirinho na cabeça de um bebê, com beijo lambuzado de um grandão. Um dia feliz é feito de gente muito querida lembrando de você e desejando, de coração, tanta coisa boa, tanta energia positiva, tanta vibração, tanta felicidade, que se torna simplesmente impossível não se alegrar. Um dia feliz é feito com comida de mãe, na companhia da família mais louca, mais desajustada, mais gritadeira e mais querida que existe. Um dia feliz é feito com soninho no meio da tarde, com beijinho estalado na bochecha, com telefone que não para de tocar e de receber mensagem. Um dia feliz é feito com inúmeras mensagens carinhosas nas redes sociais. Um dia feliz é feito de bolo de chocolate, de mesa cheia de amigos, de presentes singelos e exclusivos, de video-foto que faz chorar. Um dia feliz é feito apenas e tão somente por estar na presença de gente que quer bem a gente. É feito com coisas simples e corriqueiras, que qualquer um tem sempre à mão, que você mesmo pode alcançar agora, se quiser. Um dia feliz é a coisa mais simples que existe, basta olhar com cuidado para o que há ao seu redor e agradecer porque finalmente cada coisa está em seu devido lugar.

Obrigada a cada um de vocês que fez meu dia feliz ontem. PRICELESS!


sexta-feira, 20 de maio de 2011

Recomeçando

Recomeçar é ser capaz de buscar forças sabe Deus onde, depois de ter chegado ao exaurimento numa luta perdida. Recomeçar é ser capaz de ser benevolente consigo mesmo e reconhecer em si qualidades e potencialidades e perdoar os defeitos e as travas. Recomeçar é abrir clareiras para a construção de estradas novas. Recomeçar é deixar para trás o que é passado e olhar para frente com olhos de esperança. Recomeçar é saber que se havia caminhado um longo percurso mas na estrada errada ou que se tornou errada por algum caso fortuito ou força maior e aí, o que resta a fazer é dar meia-volta-volver. Recomeçar é saber que se perdeu tempo, dinheiro, fé, esperança, força, muito, se perdeu muito, mas que ainda assim é preciso continuar. Recomeçar é colocar de novo os pés no chão e deixar que a cabeça nas nuvens permita sentir um pouco do sonho que nos move. Recomeçar é ter sempre a crença de que, a despeito dos problemas, das dores, dos dissabores, das reviravoltas, o melhor nos espera em algum ponto do caminho e só o alcançaremos se continuarmos andando. Recomeçar é tentar de novo, mesmo sem querer, mesmo com o corpo dolorido, mesmo com feridas sangrando. Recomeçar é acreditar na vida e nas surpresas agradáveis que só nos arrebatarão se estivermos na estrada. Recomeçar é torcer para que o sorriso não saia mais do rosto e caminhar em busca de paz. Recomeçar é ter por certa alegria num futuro incerto, é apostar fichas no que é sem garantia, é ter a fé cega dos apaixonados pela vida. Recomeçar é sobreviver. Recomeçar é viver.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Abre essas janelas

Eu gosto tanto de você que, muitas vezes, prefiro mesmo esconder, como diz a letra da música do Lulu. Porque não é racional nem prudente. Porque é precipício e precipitado, porque é repentino e arrebatador, porque é como um vício bom, como um sonho bom, como um doce que se desmancha lentamente na boca e vai deixando sua doçura na vida.
 
Eu gosto tanto de você que eu tenho medo do que eu me torno por causa desse sentimento. Virei essa pessoa mais calma, mais tranquila, mais low profile, mais quieta, mais paciente, mais previsível, mais confiante, mais determinada. Virei essa pessoa que prima pelos assuntos, pelas conversas leves, inteligentes e sem fim. Virei essa pessoa que olha nos olhos e deita no colo, que abraça apertado como que possível unir o coração.
 
Eu gosto tanto de você que desconheço e muito me admira essa expectativa, essa esperança de que, um dia, este gostar seja algo concreto, com objeto e reciprocidade. Fico assustada com essa certeza que não quer ir embora de que é uma questao de tempo para que nossas dores permitam o florescer de um amor entre quem sofreu,quem se entende, entre quem luta e vibra e quer mais da vida, quem quer mais do amor.
 
Eu gosto tanto de você que muitas vezes é até difícil explicar, fico agradecendo sua presença, sua companhia, sua delicadeza, sua gentileza, suas palavras, seu carinho. Fico me desculpando pela minha invasão na sua vida, por sentir que entro demais, por querer sempre um pouco mais da sua atenção, do seu tempo, da sua vida, da sua palavra , da sua companhia. Não sei como nem porque você se tornou parte da minha rotina, do meu dia-a-dia, dos meus pensamentos, e do que sou também, porque me vejo transmutada por este bem querer.
 
Eu gosto tanto de você que me assusta essa entrega, essa espera, essa aposta sem garantias, essa paciência que eu nunca tive, esse desejo que me invade em sonhos. E é incrível que você nem reconheça os sinais todos que nos saltam à vista diariamente. É incrível que você não reconheça que essa identificação instantânea, essa proximidade ligeira, essa pulada de paraquedas na vida um do outro, nada mais é que um cheirinho de amor que só precisa de um terreno fértil para desabrochar. "Abre essas janelas, primavera quer entrar, pra fazer da nossa voz uma só nota"
 
(Escrito em Dezembro/2010)

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Cicatriz

"Nas pernas escuras da moça havia muitas cicatrizes brancas pequeninas. Eu pensei: Será que essas cicatrizes estão no seu corpo inteiro, como as luas e estrelas no seu vestido? Achei que isso também seria bonito, e peço-lhe neste instante que faça o favor de concordar comigo que uma cicatriz nunca é feia. Isto é o que aqueles que produzem as cicatrizes querem que pensemos. Mas você e eu temos de fazer um acordo e desafiá-los. Temos de ver todas as cicatrizes como algo bele. Combinado? Este vai ser nosso segredo. Porque, acredite em mim, uma cicatriz não se forma num morto. Uma cicatriz significa: 'Eu sobrevivi'.
 
Daqui a pouquinho vou falar umas palavras tristes para você. Mas você deve escutá-las da mesma maneira como combinamos ver as cicatrizes. Palavras tristes são apenas uma outra forma de beleza. Uma história quer dizer: essa contadora de histórias está viva. Daí a pouco, alguma coisa boa vai acontecer com ela, uma coisa MARAVILHOSA, e ela vai se virar e sorrir." (CLEAVE, Chris. Pequena Abelha. Intrínseca, 2010: p. 17)

terça-feira, 17 de maio de 2011

Cantem comigo: ei, ei, ei, Gabito é nosso rei!

Droga, viu? Da minha ilha emancipada, cercada de sombra e mar revolto, vem você, invade, e faz um país. Não foi uma luta justa, eu lá me esforçando pra ser mulher e você estrala os dedos, puxa meu queixo e me faz menina tudo outra vez.
 

Guarda-chuva

- Você bem poderia estar sozinho, não é mesmo? Ou, sei lá, estar com outra pessoa desfilando por aí. Uma menina dourada, quem sabe. Os ombros mais erguidos, o sorriso mais arqueado, os olhos reluzindo, falando alto aquelas bobagens bem sacadas que ninguém mais faz, senão você. Mas tá aqui, comigo. Meio quieto, um pouco soturno, às vezes deita no sofá da sala, de ponta-cabeça, com uma assustadora fisionomia de tédio, assistindo trabalhar aflita no computador. Desvirtuando minha rotina, me impacientando, com o cheiro da minha casa, das minhas coisas, do meu medo de um dia você levantar repentinamente, pegar as chaves e dizer que não sabe se volta.

- Gosto daqui. De te telefonar já na terça-feira perguntando se posso voltar. De trazer um doce que te acalma, se você trabalha aflita no seu computador. Você é a única pessoa que eu queria conhecer bem e levar junto no peito nessas ocasiões especiais chatas que só servem pra masturbar minha vergonha alheia do mundo, depois te contar e rir contigo.

Sei viver sem você, oficialmente falando. Mas eu não quero, não vou. Eu poderia te dizer aquelas doces mentiras sinceras - "Você-é-minha-vida", "Não-sei-o-que-seria-da-minha-vida-sem-você" ou todo esse tipo de porcaria que a gente diz no calor da hora. As pessoas são assim, dizem que não sabem viver sem você. Depois aprendem e esquecem de comemorar contigo. E deixam vazio o lugar que sempre será delas. Eu não, simplesmente estou aqui. De vez em quando sujo, entediado, agressivo, mal-humorado, triste, calado e chato. Mas aqui.

Não há lugar ou motivo no mundo capaz de me afastar. Já fui a todas as festas que tive oportunidade, fui a todos os shows, praças, bares, drogas, músicas, ruas, modas e também já comi todas as biscates que precisei pra realmente me sentir homem, seu homem. Nada mais funciona. Nada na vida é mais excitante que ter alguém que te abrace por trás, entrelace os dedos e diga seu nome de batismo, estendendo um chá de erva-cidreira.

Porque eu te encontrei, da forma mais esdrúxula e inesperada. E me apaixonei pelo cheiro e pelo balanço meigo e suave dos seus quadris. E como duas sacolas plásticas que se enroscam na cidade, no meio do caos, movidos por um breve redemoinho pré-chuva, a gente resolveu que ia se amar. E ninguém sabe melhor sobre nós, que nós. Ninguém poderia me dar um só argumento pra que eu devesse ficar sem você. Que dirá essa gente lá fora, cheias do Complexo de Romeu e Julieta.

No show a sol e céu aberto do nosso cantor favorito ou assistindo um filme mal dublado na tevê, nós curtimos estar juntos o tempo todo. Resposta oficial: eu poderia estar por aí, com outro alguém, injetando as sensações vertiginosas de ser livre e procurado, mas dei uma abertura ao verdadeiro amor.

E nada é mais importante que isso, que é sim, às vezes pasmo, repetitivo e bucólico, mas é real. É isso, é preciso abrir mão de uma porrada de coisas se você não quiser ficar sozinho à noite, vagando pelo seu apartamento minúsculo com o maior corredor do mundo. Vê se um dia você entende. Pensa nisso. E pode largar mão do seu guarda-chuva contra as paixões. Até porque, nem tem chovido tanto assim.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Tomara que sim

Tem dia que eu acho que não tem nada a ver, que é maior forçação de barra da história do Brasil, que é a ilusão romântica de uma história novelesca, de um final feliz, alguma redenção, alguma compensação depois de tanta dor, algo que seria bonito até de contar se tudo desse certo no final. Tem dias que eu sinto dentro de mim que tá tudo errado, que não era pra ser assim, não era para vivermos essas amputações e persistir apoiados um no outro, como se a nossa companhia servisse para reequilibrar o caos interno, para tamponar algumas feridas e para embaçar um pouco a visão. Tem dias que eu penso que nem eu mesma quero estar aqui, que me engano com o conto de fadas, com o "seria perfeito" que ouvi tantas vezes, que eu acho que é ilusão tecendo crochê dentro de mim. Tem dias que eu tenho uma quase convicção de que não vai dar certo, de que não é nada disso que a gente tá pensando e que não tem nada a ver. Em vez de leve, natural, tranquilo, feliz, é uma história amarrada com correntes pesadas e com um passado muito difícil de suportar. Tem dias que eu acho que não, melhor não.
 
Mas quando toca o telefone e escuto do outro lado a doçura da sua voz, o carinho para comigo, o cuidado com cada coisinha nossa de cada dia. Quando eu sinto o quanto faz bem, o quanto é leve, natural, tranquilo e feliz, mesmo com as correntes pesadas que arrastamos. Quando eu sinto que é a companhia mais presente dentre todas, mesmo daí. Quando eu percebo os sorrisos que surgem nos nossos rostos quando estamos juntos, a alegria que resplandece no olhar e as gargalhadas que arrancamos constantemente. Quando eu sinto que não somos uma escora, uma muleta que ajuda a suportar, mas o ceú azul depois da tempestade, o raio de sol depois do inverno mais congelante, a trégua depois de vários terremotos. Quando eu sinto o coração apertado quando dói em você e quando eu vejo você ler na minha alma o que está escondido no mais profundo de mim como se estivesse estampado na face. Quando eu sinto essa intimidade, essa cumplicidade e essa incrível e surpreendente sintonia que nos conecta. Quando a gente fala a mesma coisa ao mesmo tempo, quando eu penso em você e o telefone toca em seguida, quando se entende pelo tom de voz que o dia não foi bom. Quando eu me pego imaginando e revivendo, quando eu me vejo pensando em coisas para surpreender, quando eu me percebo em transformação não por imposição mas por sentir e aprender. Quando eu vejo o quanto é espontâneo e recíproco e doce. Quando eu me vejo pensando que é o melhor de cada dia todos os dias. Quando eu me sinto querida, ajudada, cuidada, amada. Quando eu tenho esses pressentimentos e previsões que são corriqueiramente confundidos com expectativas e desejos. Quando eu entendo que não é só uma boa história novelesca, não é só um lindo roteiro adaptado para a vida real, não é só um enredo emocionante, mas é o que é, somos eu e você, com nossos limites e problemas e entraves e medos e receios e impulsos e desejos e essa liga que amarra a gente. Quando eu penso em tudo isso, eu penso que sim, tomara que sim e que não haverá nada que me faça arredar o pé daqui.

domingo, 15 de maio de 2011

It's not a race at all

"Look at us: running around, always rushed, always late. I guess that's why they call it human race. What we crave most in this world is connection. For some people it happens at first sight. That's when you know, you know. It's fate working its magic. And that's great for them. They get to live in a pop song. Ride the express train. But that not the way it really works. For the rest of us it's a bit less romantic. It's complicated and it's messy. It's about horrible timing and fumbled opportunities and not being able to say what you need to say when you need to say it.

Look at us: running around, always rushed, always late. I guess that's why they call it human race. But some times, it slows down just enough for all the pieces to fall into place. Fate works its magic and you're connected. Every once and awhile, among all the randomness, something unexpected happens and it pushes us all forward. And the truth is, what I'm starting to think, what I'm starting to feel is that maybe the human race isn't a race at all."

From: The Switch
Música: All the beautiful things - Eels