quarta-feira, 8 de junho de 2011

Eu não tenho medo de ficar


Eu gosto de quem facilita as coisas, de quem aponta caminhos ao invés de propor emboscadas. Eu sou feliz ao lado de pessoas que vivem sem códigos, que estão disponíveis sem exigir que você decifre nada. O que me faz feliz é leve e, mesmo que o tempo leve, continua dentro de mim. Eu quero andar de mãos dadas com quem sabe que entrelaçar os dedos é mais do que um simples ato que mantém mãos unidas. É uma forma de trocar energia, de dizer: você não se enganou, eu estou aqui. Porque, por mais que os obstáculos nos desafiem, o que realmente permanece costuma vir de quem não tem medo de ficar.

Fernanda Gaona

terça-feira, 7 de junho de 2011

Sua, sua, sua

Eu entro nesse barco, é só me pedir. Nem precisa de jeito certo, só dizer e eu vou. Mas olha, eu só entro nesse barco se você prometer remar também! Eu abandono tudo, história, passado, cicatrizes. Mas você tem que me prometer que essa viagem não vai ser à toa, que vale a pena. Que por você vale a pena. Que por nós vale a pena. Remar. Re-amar. Amar. (Caio F.)
 
Se fosse a razão que se mostrasse, o que eu veria seria um NÃO gigante, piscando em luz neon. Se fosse a razão que respondesse minhas perguntas, ela recomendaria que meu pezinho permanecesse aqui atrás, porque o baque é certo. Se fosse a razão que comandasse o leme, é certo que velejaria rumo à terra firme. Se fosse a razão que me aconselhasse, de certo o que ouviria seria para ter cuidado, juízo e ir com calma. Mas não é. Eu vou ouvindo somente o coração, que é aventureiro e travesso e destemido. Vou agindo por instinto, por impulso, vivendo o momento sem pensar em mais nada. Eu vou na onda, eu vou ao sol, eu vou curtindo muito sem saber que posso terminar no fim da estrada, no ponto onde os caminhos não se cruzam. Eu vou cantando, desfrutando de boa companhia, achando que tenho todo direito do mundo de ser feliz de novo e de sentir como me sinto e, sabe, eu sei que ainda vou querer muito mais, eu sei que vai chegar a hora em que o assentamento será inescapável. Por enquanto, não. Por enquanto, brisa leve e sorrisos. Por enquanto, mãos entrelaçadas e coração que viaja milhares de quilometros para estar perto. Por enquanto, o pronome possessivo da terceira pessoa do singular reverbera em mim em repetição, mostrando que o que eu mais quero ser é isso mesmo: sua, sua, sua.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Casamento dos melhores amigos

Eu sempre acho que vai ser tranquilo, que eu não vou chorar... Mas eu sempre me engano. Ver meus amigos casando me emociona demais, ainda mais este casal que está há tantos anos na minha vida. Ela minha amiga desde as fraldas, ele amigo do Thi de escola, eles nossa principal companhia nos tempos de namoro e padrinhos do Thomás. Fiquem aí com as fotos do sábado feliz, com meus pequenos e lindos pajens e com quase todos amigos de infância.














Sejam muito felizes, Greg e Keka!!!

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Nem eu entendo direito

A intensidade me persegue. Não, não sou perfeccionista. Eu sou intensa. Quero aproveitar cada coisa até a última gota. Quero viver profundamente aquilo que está ao meu alcance. Quando depende só de mim e se refere aos aspectos burocráticos da vida, é até fácil, eu meto as caras, eu resolvo logo, eu passo logo pelo que tiver de passar, eu soluciono o mais rápido possível sem protelações, eu falo o que é necessário falar, eu faço o que tiver de fazer. Eu sei que não era assim até bem pouco tempo atrás e que algo em mim mudou para que eu virasse essa pessoa mais objetiva e prática.
 
Contudo, em se tratando de relacionamentos, eu sou uma fraude. Eu fico por aí, dizendo que a gente tem que aproveitar as pessoas, que tem que viver intensamente, que tem que amar e blablablá, mas, na verdade, lá no porão do de dentro, eu me pego sempre preaparada para o pior, para perder de repente, para não ter mais para sempre e, por isso mesmo e outras coisinhas mais, eu vivo em relacionamentos meio termo, não resolvo as questões pendentes e as palavras que precisavam ser ditas se acumulam na minha garganta fazendo um nó. Eu sou uma fraude porque eu não me jogo e, quando estou na iminência desse ato desvairado, eu recuo. Eu sou intensa, eu sinto intenso, mas eu não me jogo. Ando e recuo alguns passos numa valsa do crioulo doido que sai do nada para o lugar nenhum.
 
Mostrar e falar o que sinto é um ato de explosão que me parece, muitas vezes, com uma cirurgia sem anestesia. Dói demais me expor, dizer tudo que revira por dentro, demonstrar quão frágil eu sou. Dói demais deixar claro o tamanho do bem querer, da necessidade que tenho de estar perto, do ciúme dos outros alguéns que se aproximam e roubam o pouco da atenção que deveria ser dedicada a mim. Então, quase sempre, eu prefiro calar, eu prefiro esconder, prefiro deixar passar o momento justamente para não colocar o meu coração nas mãos de alguém. Não faz o menor sentido essa posição, porque, a bem da verdade, o coração já se entregou por vontade própria, já bate fora do meu corpo nas mãos de pessoinhas e afins e a minha relutância é só o espernear de uma criança que sabe que não vai conseguir driblar a mãe e escapar da injeção.
 
Pensando nisso, percebo que outra coisa em mim também mudou para que eu me tornasse medrosa e bipolar. Eu sigo me preparando para sempre perder e então digo a mim mesma para não apostar todas as fichas, não dar a cara para bater e reflito que, ao menor sinal de brejo, melhor mesmo é nem tentar salvar a vaca. Não é leviano, não é que eu sinta descartável, não é que não doa, é só uma forma (infantil, obviamente) de me proteger. Ainda assim, eu percebo, de um jeito irrefutável, que tudo que mais queria era justamente as certezas da terra firme e a paz de um ombro que seja meu.
 
A minha corrida, o meu embate, a minha irresignação, a resistência, a relutância, as fortalezas construídas em torno de mim, todo meu equilíbrio tombarão prostrados ante a promessa verdadeira e inequívoca de um amor tranquilo, que chegue com malas, cuias e com o meu coração nas mãos, dizendo que veio para ficar. 
 
 

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Senhora do Destino #fail

Eu  já entendi que essa história de "senhora do destino" é só coisa de novela mesmo. Não se tem poder algum sobre a vida nem sobre o destino. Compete-nos fazer algumas escolhas, é claro; rechaçar alguns inconvenientes, relevar pequenos atritos e desconfortos naturais nesse percurso. Compete-nos decidir alguns rumos, renunciar a outros, escolher pessoas, criar laços. Ainda assim, existem coisas que estão para além da nossa pequena e tacanha compreensão e limitação humanas.

Fato é que crescemos achando que é para sempre, vivemos como se fosse certo, contamos com o futuro que pode simplesmente nem chegar, corremos atrás de ganhar dinheiro, de adquirir bens e acumular recursos, de desenvolver habilidades promissoras para o mercado de trabalho e esquecemos, veja só que leviano e vão, esquecemo-nos de apreciar o caminho e as pessoas. Vivemos esperando o melhor momento para viver. Postergamos a felicidade, a alegria, a vida para quandos, para ses, para o depois que, como disse, pode nem vir a ser. E nessa nóia de esperar ótimas oportunidades e grandes feitos, deixamos escapar entre os dedos a felicidade pequena, corriqueira, palpável de todo dia.

A vida traiçoeira, moleca, levada, planta inúmeras surpresas no nosso caminho. Algumas delas parecem, sim, o fundo do poço, o fim do mundo, trazem uma sensação de quase morte, de amputação, de que se foi atravessado por uma bala de canhão. E, para quem vive assim, deixando para viver depois de quando, depois de um se, esse tipo de surpresa deixa um gosto amargo na boca, a sensação de que poderia ter sido feito mais, ter falado o que sentia, ter aproveitado a companhia, ter investido mais uma vez, ter perdoado, ter tentando porque valia a pena cada lágrima, cada gota de suor do rosto. Sobreviver ao choque traumático não é para todos e (disseram e eu concordo) a gente nunca sabe a força que tem até que a única alternativa é ser forte*.

E aí, se caminha mais um pouco, rasgando a pele, puxando o ar com dificuldade, buscando força quando não há mais fé, não há mais ânimo, não há quase nada, meio cego, meio louco, meio cambaleando e sangrando, e descobre, logo ali na frente, outra surpresa. Dessa vez, grata surpresa, dessas de fazer o coração acelerar, dessas de fazer a vida valer a pena, dessas de fazer entender que perdeu tanto ali atrás apenas e tão somente para dar valor a cada pequeno detalhe desse presente no presente. De repente, vem um sorriso autêntico e espontâneo de novo, e se percebe que as lágrimas não tem mais razão de ser, que o coração descomprimiu e de tão grande, parece não caber mais no peito. Voltamos a entender as coisas do mundo e achar que estar aqui tem um sentido, uma razão.

Não importa o que se faça, o que se acumule, quem se tenha, as escolhas que foram feitas, todos nós, sem exceção, estamos sujeitos a esses loopings na montanha russa da vida, a essas mudanças repentinas e que colocam tudo em perspectiva. A principal escolha que se impõe é a forma como lidaremos com esses momentos. Alguns se perderão dentro de si mesmos, sucumbindo ante a tristeza. Outros descobrirão que a força, a fé, a esperança que os move não os deixará esmorecer. Alguns não saberão dar valor aos presentes plantados no percurso e outros sorverão cada instante com sabedoria e gratidão.

De qualquer forma, vivida, exaurida e superada a dor, é possível enxergar com clareza o que sobrou. Conseguimos, então, distinguir o que é uma preocupação de um incômodo, o que é um dissabor e o que é um problema, o que é fundo do poço (exatamente porque se esteve lá). Passamos a dar valor a cada noite de sono, cada sorriso arrancado, cada momento em boa companhia, cada amizade verdadeira, cada dia de sol, cada abraço apertado, cada taça de vinho. E não é que se viva pensando somente no presente, no pra já, no imediato. É óbvio que sonhos, planos e projetos persistem aquecendo a alma e espairecendo a mente. O que acontece, de um jeito contumaz e invencível, é que acabamos percebendo que o melhor que se pode ter é o agora e que não podemos deixar escapar nenhuma oportunidade de ser feliz, porque isso, sim, é pra já.

"A vida é quem faz as escolhas, por mais que nos dê outra ilusão. Ela nos brinca e, em suas mãos, somos criança. Entre uma brincadeira e outra, vem a morte para nos ensinar tanto a urgência como a calma resignação. E é no jogo bobo e repetido que vai se revelando: o que passa, o que vem para ficar, o que é só caminho, o que é lugar para morar." (Cris Guerra)

*Johnny Depp

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Em paz

É do seu cheiro que meu corpo se embriaga. É o seu gosto que gosto de sentir na ponta da minha língua. É no seu corpo que eu enrosco o meu e me perco num frisson de arrepios, devaneios e espamos que só com você eu consigo sentir. É quando eu me perco de mim em você que eu me encontro. É quando toca no mais profundo de mim que eu vivo. É quando encosta em mim inteiro que os eclipses acontecem. É quando nossas almas se tocam que se sente a represa jorrar. É nesse momento, de quase morte, de quase perda dos sentidos, de total entrega, de osmoze que eu descubro o quanto amo você, que eu esperava esse momento de ser sua há muito, que ansiava pelo seu toque desde antes de ouvir sua voz. E passado o êxtase, eu entendo que é por isso que a Terra gira em torno do seu eixo e ao redor do sol, é para isso que o tempo corre e o tempo não para, é só para que esse encontro pudesse acontecer. Eu descubro que é nesse espaço-tempo ao seu lado que eu quero viver/morrer e é só no seu ombro, com o nariz encostado na curva do seu pescoço, que meu corpo descansa em paz.
 
(Thais Racnela)

terça-feira, 31 de maio de 2011

Sobre amor e outras coisas

A Mirys manda, eu obedeço. E hoje, num dia difícil pra ela, num dia de dor, num dia em que a sensação de solidão impera de novo dentro do coração dela, ela resolveu espalhar boas vibrações pelo mundo incitando a blogosfera a falar sobre família e amor. Eu não sei fazer textos programados e/ou encomendados, mas falar sobre quem eu amo eu sei. Então ficou mais fácil.

Eu tenho uma família de verdade: meus pais e meus irmãos ainda saracoteiam pelo mundo e estão comigo rotineiramente. A gente briga, a gente se desentende, a gente grita muito, quebra o pau e, passados cinco minutos, continua conversando e rindo como se nada tivesse acontecido. Tenho orgulho de viver numa família assim, verdadeira e nada rancorosa. Tenho orgulho de poder dizer que somos absolutamente francos uns com os outros, sem mistérios, sem segredos que não possam ser divididos. E é assim: quem faz coisa errada, houve os esporros dos outros, numa reunião do conselho familiar, mas também sabe que ali estão justamente as pessoas com quem poderá contar sempre. Minha mãe diz que se orgulha dos filhos que ela criou. É que no momento de precisão mesmo, no momento do pega para capar, a gente mostrou que segura a onda, nós três mostramos isso. Pai, Mãe, Manu e Tiago: AMO vocês!

Aí, você vai e forma uma família para si. Ama alguém loucamente, ama de um jeito tal, que é como se a pessoa fosse parte do que você é. Ama de um jeito que se reconhece no outro, se mistura com ele, passar a ser dois, e depois três, e depois quatro. Você se vê, de repente, como mãe de dois seres que a olham como se você tivesse superpoderes. Você vê, em dois pequenos, a mistura perfeita e na proporção exata daquilo que você é com aquilo que quem você ama é. Você passa a entender a vida, a perceber porque a gente está nesse mundo caótico. Você passa a extravazar de amor, como se ele simplesmente deixasse de caber dentro de si. A m(p)aternidade transforma o casal e, como eu sempre digo, dá um nó cego na relação. E, por mais que a vida pregue surpresas absurdas e tenha puxado meu tapete no momento em que tudo se encaminhava para a paz que eu sonhei ter, eu sei - e acredito que todo mundo saiba - reconhecer o que foi vivido. Sei também que o simples fato de ter vivido esse amor fez a minha existência ter valido a pena. Não ficou nada por dizer, nada por fazer. O coração dele parou de bater nesse mundo com a convicção plena do meu amor, assim como eu sempre soube do dele, até quando ele quis omitir. Thi, Matheus, Thomás: AMO vocês!

E tem também uma galera que é como se fosse família para mim. E essa é uma das coisas que eu sei fazer melhor: manter amigos por perto. Ainda que eles não estejam fisicamente perto. Assim, eu fui angariando gente no decorrer dos anos. No começo, eram as meninas do prédio; depois a turminha do colégio; depois o pessoal da faculdade; os amigos do Thi que herdei depois do janeiro trágico; os que chegaram virtualmente... Os amigos se acumularam, com poucas baixas. E eu me vejo hoje convivendo com pessoas com quem tenho, em anos de amizade, o mesmo número que a nossa idade. Enquanto a maioria das pessoas não consegue contar nos dedos de uma mão o número de amigos de verdade; eu acho que nem com as duas eu conseguiria dar conta. E posso garantir que passaram todos pela prova dos nove. Sinto-me felizarda por conseguir manter essas pessoas por aqui comigo. Eu sei que eles sabem, cada um deles sabe, porque, por tradição familiar, eu faço questão de falar, de deixar claro o quanto são importantes para mim. Não teria como listá-los aqui, mas repito: AMO VOCÊS!

E pensando nessas pessoas, pensando no objetivo último dessa blogagem coletiva, eu chego mais uma vez à conclusão que eu mais repeti até aqui, a maior lição que tirei do pior momento da minha vida. O mais importante nesse mundo não é aquilo que se tem, mas QUEM se tem. O mais importante nessa vida não é fazer grandes coisas, descobrir a cura de uma doença até então incurável, fazer uma grande descoberta científica, escrever um tratado publicado e traduzido em diversos países, acumular bens e fazer fortuna. Não, gente. Não é nada disso. O mais importante nessa vida é estar ao lado de quem a gente ama, e poder, vezenquando, transformar a vida das outras pessoas com pequenos gestos de amor e doação. Porque o que a gente tem de melhor é o que carrega dentro de si, é o que escapa no olhar, é a ternura dos nossos beijos, é o carinho dos nossos abraços. E isso não há nada no mundo que possa substituir. A gente só vive de verdade quando ama e se doa para alguém, para os outros, por uma causa. E amar, assim como ser feliz, exige coragem. Coragem, meus queridos! Coragem!

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Sobre o tempo

Eu sei que só ele é capaz de fechar as feridas que foram abertas. Eu sei que só ele é capaz de abrandar as dores mais lancinantes, de acalmar os corações mais aflitos, de enternecer a alma, de produzir a experiência que cura a ansiedade. Só ele que traz gratas surpresas, faz tricô com os laços que a gente carrega pela vida, coloca o inesperado numa curva do caminho e traz a cola de boa qualidade para juntar todos os caquinhos em que se foi partido. É ele que faz com que as coisas ganhem novas perspectivas, é ele que brinca com os nossos sentimentos: quando queremos velocidade, ele anda devagarinho; quando queremos devagar, a velocidade da luz. É ele que é peralta com nosso coração e transforma aquilo que fez a gente se sentir minúsculo em motivo de boas gargalhadas. Faz com que as boas gargalhadas virem doces recordações. Faz com que esqueçamos quem nos magoou e porque fizeram isso e que fiquem guardadas para sempre o melhor de cada coisa e de cada pessoa. Ele dá tons de rosa ao que era cinza e pinta de azul o inverno. Ele faz crescer a nostalgia por uma infância que foi bem vivida e por uma adolescência bem aproveitada. Ele transforma o amor mais doente em coisa de adolescente e o amor mais feliz em saudade que se gosta de ter. O tempo é amigo, não posso negar, e age ininterruptamente em cada um com seu poder de império inescapável. O único problema é que ele passa diferente para cada pessoa, os ciclos terminam em tempos diferentes para cada um. Meu medo é que o tempo da cura seja maior que o tempo de espera e que, lá no final dos tempos, não esteja você.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Afeto em atitudes

Quando somos envolvidos e nocauteados por qualquer sentimento, eu acho importante que se exponha o que se está sentindo. É necessário colocar para fora e não deixar aquilo tudo se acumular dentro da gente. Digo mais: é importante mostrar para o outro o que nos agride, o que nos violenta e o que nos acalma e enternece a alma. Acho digno que se deixe a fúria explodir, as lágrimas caírem, o sorriso saltar. Acho lindo o extravazar. Para mim, essa tarefa nem sempre é fácil. Tenho sérios problemas em demonstrar fragilidade, mais ainda quando não me sinto segura e tranquila. Não é difícil me adivinhar, todavia. Eu demonstro o que movimenta o meu ser por inúmeras formas tangenciais além da fala. Sim, eu acho importante falar, mas acho mais importante ainda deixar inequívoco em atitudes.

E aí são pequenos gestos, sutilezas do bem querer, que demonstram o tamanho do sentimento e a profundidade da relação que se tem por/com alguém. Não é preciso grandes declarações, demonstrações públicas, gritos em desvario, serenatas, outdoors, propaganda em horário nobre. Não é preciso que o mundo inteiro saiba, que seja twittado ou compartilhado via facebook, que seja um vídeo acessado quinhentas e quarenta e cinco mil vezes no youtube. Não é preciso que seja insensato definitivamente. A verdadeira demonstração de amor acontece em brandas demonstrações de carinho e inequívocas comprovações do afeto. E, para mim, é muito mais fácil que seja assim.

É o celular que toca só uma vez e a voz do outro lado é de alegria. É conseguir perceber num olhar o que está escondido e muito bem trancado no mais profundo de dentro e ter liberdade para falar isso, assim, de cara, pá pum. É ter ouvidos que não se cansam de ouvir a mesma história, o mesmo tema. É estar de prontidão para as emergências mais fúteis e para as mais inúteis. É cuidado um com o outro, com o bem estar, com o que se come, como se dorme. É ouvir com atenção histórias longas e contadas nos mínimos detalhes e se lembrar de cada um deles dias depois. É pensar numa música tema para os momentos que se vive junto. É estar à disposição a qualquer hora, do dia e da noite, onde quer que se esteja. É não precisar de esconderijos, nem de subterfúgios, nem de desculpas, nem de escapar pela tangente por conta dessa relação. É ter certeza sobre o que sente, sobre o que o outro sente e, principalmente, sobre o que os une. É não ter motivo de reproche, de vergonha, de medo porque é o que se é. É saber a dimensão e a importância da relação e ser grato por isso. É se preocupar com a opinião do outro e também sobre o que os outros pensam dele, com o que pode feri-lo, com que pode magoá-lo e tentar protegê-lo das agruras do mundo. É ter cuidado, carinho, respeito para aqueles dias em que o coração tá cambaleando. É dividir devaneios tolos, uma fatia de bolo, uma pata gorda de carangueijo, uma pizza de pepperoni. É estar presente quando a companhia é o melhor presente, seja um dia de alegria, seja um dia de desmoronamento. É segurar a mão, oferecer o ombro, lenço de papel, um pastel, massagem no pé, camisa reserva, o carro, o colchão. É comprar o presente exato sem fazer a menor diferença o preço. É saber o que ele quer comer, antes que se peça o cardápio. É sentir-se agraciado quando consegue agradar. É abrir mão de coisas que se sabe que podem atingi-lo. É tornar importante o que é importante para quem se quer bem. É ver o mundo com os olhos de quem se ama e sempre está um pouquinho à frente, uns passos a mais, para que nada de mal o atinja. É uma gentileza, uma delicadeza e, às vezes, também uns puxões de orelha, uns sacolejos. Porque ninguém pode viver flutuando, é preciso manter os pés no chão. É uma entrega de alma que se faz por amor.

É claro que tem quem ame diferente, de um jeito mais ogro, mais tosco, mais grosseiro, ríspido até (who knows?). É claro que tem gente que não sabe nem demonstrar nem falar o que sente. Mas essa linguagem aí é universal e, muitas vezes, o afeto em atitude vale mais que as palavras. O que não sai pela boca, mas vem de coração, tem muito mais poder e deixa demonstrado de maneira cristalina  o bem querer.